Depois de uma fase em que tudo me aconteceu (expulsaram-me hospedes sem razão nenhuma do hotel e tive de andar com eles como se meus filhos fossem) , uma chamada em que me dizem "acho que o meu marido morreu" (e tinha morrido) e uns cães que decidiram atacar para matar outro e tive de proteger com o corpo, isso meia hora antes de uma reunião com 50 pessoas, aparecendo lá de joelhos esfolados, mãos cortadas e só depois tratar das feridas. costumo fazer isso eu, tratar das feridas depois do ataque mas só muito tempo depois. um dia explico. depois disso tudo, é final de temporada e estamos (todos) exaustos. dei-me conta disso hoje quando, ao almoçar com um colega, sorrimos para um hospede que fez uma piada (daquelas que já ouvimos imensas vezes mais rimos como se fosse a primeira e, pior; que teve graça) e esse sorriso foi um sorriso de palhaço triste. não havia melhor definição; estamos um palhaço triste. há uma rotina até nos diferentes hospedes que se encontra. procuram sempre algo típico em estações balneares (!!!!) markets para comprarem "souvenirs" e hoje perguntaram me onde se pode comer chinês barato e nem pestanejaram quando disse que perto de qualquer canil. fuck my life.
já custa sorrir. já nem apetece fazer de conta que me lembro dos hospedes que estiveram noutro hotel há dois anos e "você até me deu aquela dica do barco em tavira! não se lembra??" não, amigo, não me lembro, também não li as criticas que diziam "o hotel é uma merda mas a representante é bem simpática" até porque nao é isso que vão ter, meus lindos, é fim de temporada, , ainda me custa dobrar a perna e sorrir entao, deus me livre, vi o corpo morto de um hospede e tenho de fazer ainda um testemunho à policia.
A parte má é que nao há ninguém de fora que entenda, não há ninguém que perceba o quanto é cansativo e, ao mesmo tempo, reconfortante trabalhar em turismo. a parte boa é que nos juntamos, todas as semanas, na casa de uma, fazemos comida, trazemos imensa bebida e brincamos com tudo o que os aconteceu naquela semana. sim, acho que posso dizer que tenho amigos, é uma coisa nova para mim, isso de ter colegas amigos, pessoas que nao só sabem o que acontece dentro do horario de expediente mas também fora e gosto. gosto de poder contar com eles, sei que é perigoso mas também é gratificante explicar porque, naquele dia, não estamos a 100%. é bom poder mandar mensagens no meio de uma reuniao a fazer de conta q se está a verificar disponibilidade ou preços e só dizer a outro "i want to go home" ou mandar um dedo do meio e entenderem em vez de faltarem ao respeito e perderem o nosso. sonhei que estava apaixonada pelo sheldon, também sonhei que iria viver para itália. um dos dois irá ser realidade e o sheldon é gay. já estive pior.
os clichês existem porque sao a verdade repetida
Ontem estava a voltar da excursão. O nível de cansaço era tanto qe adormeci no autocarro; 17 idosos com as mesmas perguntas e eu sempre sempre com o mesmo discurso. Gosto de guiar a excursão mas, em fim de temporada, já cansa, já aborrece e ja tinha prometido não a fazer mais. Arranco com o meu carro e prometo descansar. Ligam me de um hotel; o casal que eu tinha visto na segunda feira? olhe, o marido morreu. A mulher quer falar contigo. O problema disto de se falar francês é que pareces uma jarro raro. Em principio não serves pra nada mas depois aparecem leiloes e todos te querem. adiante; Há uma coisa que nao sabes, eu não tenho medo de baratas, cobras ou mesmo, vê tu, aranhas ou agulhas mas, por favor, a morte? Metam-na longe de mim.
Meia hora depois cheguei ao hotel. A corrente de ar permitia ver entre os cortinados um corpo cinzento envolto de um plástico e um cheiro horrível. A senhora, sentada, tinha um olhar que nunca esquecerei; vidrado e perdido. Ao lado, uma holandesa a forçar empatia com ela, aos abraços e a gabar-se de que está a reconfortar a estranha desde o inicio, ao lado a policia com ar de tédio e às mensagens, o chefe de receção sem saber muito bem o que fazer, a dar copos de agua a toda a gente e a suspirar. Fomos dar uma volta, almoçamos, estávamos no sofa, ele revirou os olhos e foi-se. A ambulância demorou meia hora, porque demorou tanto tempo?” Eu nao sei, minha querida, foi ataque cardíaco fulminante, só lhe posso dizer que mesmo que tivessem vindo mais cedo, não havia nada a fazer. Porque nao vieram mais cedo?” E essa pergunta passei a noite toda a ouvir e a responder sempre da mesma maneira. Porque nao vieram mais cedo?
É nestas alturas que metes os pés no chão e vês o quanto o mundo é cao. Ou é como é mas não gosto de usar a expressão “é como é” portanto é um mundo cão e o gajo da agência de seguros não me sabe dizer quando é que a hospede pode voltar para perto do filho. São onze da noite, a esta hora não há muito que eu possa fazer e eu respondo que aqui também e estou a procura de voos em Lisboa para que ela possa ir ter com o filho que, entretanto, me liga de cinco em cinco minutos a perguntar o que vai acontecer agora, isto a juntar a viuva que, de quando em vez me olha com os olhos perdidos e me pergunta porque a ambulância demorou tanto tempo.
Depois do olhar perdido, há outra coisa que nunca esquecerei. “eu aderi ao seguro porque na publicidade prometiam aviões privados em caso de repatriamento e agora não tenho nada” e a ingenuidade, tal e qual os cremes anti rugas que tiram anos de marcas afectou-me.
Dirijo me a ela usando o seu nome, não é muito dificil, tem o nome da minha mãe. Quando me quero referir ao marido, tenho de, constantemente, ver o seu bilhete de identidade e rever a foto dele, não cinzento e de cheiro agonizante mas sim de ar saudável e quase a sorrir. Tinha 59 anos. Porque nao vieram mais cedo?
Explico-lhe devagar o que vai acontecer; amanha vamos leva la para lisboa, dali uma colega ira metê-la no avião para lille. Quando sair do avião terá ajuda com as bagagens e quando sair estará com o seu filho. Em casa. Repito isso milhares de vezes, ela continua a perguntar porque não vieram mais cedo e quando é que o marido vem para casa. Eu sei que estas coisas demoram dias, se não semanas. Não respondo. Digo que só depois da autópsia podemos ter certezas. Porque nao vieram mais cedo.
Voo marcado, transfer pago, copias feitas e emails mandados, volto para casa e um colega, que viajou por meio mundo, me contou as vezes que isso lhe aconteceu; o casal em lua de mel e ele morre porque estava todo minado de cancros e não sabia, a mulher que foi fazer um passeio e o marido morre de embolia pulmonar enquanto ficou na piscina e todas essas coisas que, afinal, não acontecem a milhares de quilómetros de distancia. É já ali, dentro do quarto onde os cortinados dançam e deixam ver o corpo cinzento e o cheiro a morte.
Nao tenho a certeza ainda mas acho mesmo que o olhar dela mudou-me para sempre.
life full of whatever
na sexta feira, uma colega liga-me a dizer que tenho, no clube onde ela trabalha, um cliente da minha agência que não está satisfeito. chamava se "sousa". eu ri-me e disse que lá estaria às duas. cheguei era uma e meia porque ao pequeno almoço descobri os ovos mexidos com queijo e as torradas com azeite e praticamente rebolei até lá sem passar pela casa do almoço.
Aparece-me um tipo de manga cava e fio de ouro ao pescoço. senta-se e resmunga durante meia hora. aprendi (e bem) que é preciso deixa-los falar. queixou-se de tudo; das filas para comer, do bar que só está aberto até as 18, de poucas espreguiçadeiras perto da piscina mimimimimi basicamente o Algarve em Agosto e eu ouvi. ouvi tudo. foi só quando a mulher chegou que acordei. juro que até aí só me apeteceu fazer contas e informar que, para mudarem de hotel teriam de cuspir mais 1500 euros mas ela chegou com os putos e algo em mim quebrou. baixota, uma energia do caraças, dois putos lindos, topei logo que era uma trabalhadora que merecia ferias, não me perguntem como, soube. a dada altura ele foi para o quarto mais os putos e fiquei com ela; origem italiana, nasceu na Bélgica, ficou com a pizzaria dos pais e, mais a irmã tomam conta do negócio sem afastar os pais. já fez uma abdominoplastia e botox. olhar para ela era como olhar para uma acrtiz wanna be. aquele desejo de ser algo que nunca seria, tinha as mãos de trabalhadora e o cabelo de princesa.
odeio burocracia, odeio mesmo mas passei a tarde toda a tentar mudá-los de hotel até que se fez luz e aproximei-me do manager e, sussurrando, confessei que eles ficarem ali só iria causar veneno e que o melhor era muda-los dali pra fora. resumindo e concluindo, foram para a um hotel de cinco estrelas, tudo lindo e tudo novo. sem custos extras para ninguém. nao me perguntem como consegui, nem sei, foi sorte mas hoje fui visita-los no novo hotel e ela apareceu qual estrela de cinema, chapeu de palha preto, vestido de renda negro e maquilhagem perfeita. enquanto o marido continuava com a manga cava e a porra da corrente com um puto em cada Mao, ela deslizava pelo hall do hotel e sentou-se com uma elegância incrível. disse que se sentia, enfim, em casa e que não sabia como me agradecer. ao despedir-se, abraçou-me com os seus braços de quem faz massa de pizza todos os dias, as maos cheias de calos e vida e senti - mesmo - ter dado, durante uma semana, a vida que aquela mulher merecia. e correu tudo bem.
Aparece-me um tipo de manga cava e fio de ouro ao pescoço. senta-se e resmunga durante meia hora. aprendi (e bem) que é preciso deixa-los falar. queixou-se de tudo; das filas para comer, do bar que só está aberto até as 18, de poucas espreguiçadeiras perto da piscina mimimimimi basicamente o Algarve em Agosto e eu ouvi. ouvi tudo. foi só quando a mulher chegou que acordei. juro que até aí só me apeteceu fazer contas e informar que, para mudarem de hotel teriam de cuspir mais 1500 euros mas ela chegou com os putos e algo em mim quebrou. baixota, uma energia do caraças, dois putos lindos, topei logo que era uma trabalhadora que merecia ferias, não me perguntem como, soube. a dada altura ele foi para o quarto mais os putos e fiquei com ela; origem italiana, nasceu na Bélgica, ficou com a pizzaria dos pais e, mais a irmã tomam conta do negócio sem afastar os pais. já fez uma abdominoplastia e botox. olhar para ela era como olhar para uma acrtiz wanna be. aquele desejo de ser algo que nunca seria, tinha as mãos de trabalhadora e o cabelo de princesa.
odeio burocracia, odeio mesmo mas passei a tarde toda a tentar mudá-los de hotel até que se fez luz e aproximei-me do manager e, sussurrando, confessei que eles ficarem ali só iria causar veneno e que o melhor era muda-los dali pra fora. resumindo e concluindo, foram para a um hotel de cinco estrelas, tudo lindo e tudo novo. sem custos extras para ninguém. nao me perguntem como consegui, nem sei, foi sorte mas hoje fui visita-los no novo hotel e ela apareceu qual estrela de cinema, chapeu de palha preto, vestido de renda negro e maquilhagem perfeita. enquanto o marido continuava com a manga cava e a porra da corrente com um puto em cada Mao, ela deslizava pelo hall do hotel e sentou-se com uma elegância incrível. disse que se sentia, enfim, em casa e que não sabia como me agradecer. ao despedir-se, abraçou-me com os seus braços de quem faz massa de pizza todos os dias, as maos cheias de calos e vida e senti - mesmo - ter dado, durante uma semana, a vida que aquela mulher merecia. e correu tudo bem.
heart
As "capazes" (saudades das capazes no twitter) decidem motivar o desenvolvimento da capacidade dos homens poderem expressar o que sentem sem parecerem frágeis. As capazes (saudades das "capazes" no twitter, não sei se já tinha dito) sempre tiveram jeito para motivarem atitudes errando apenas ao pensarem que se deva só a um sexo, especialmente ao do homem. desgraçados.
Mostrar sentimentos, seja ele qual for, seja ele de quem for, é sempre uma prova de coragem, nunca de fraqueza. É cada vez mais difícil para nós, seres humanos multifacetados e embrulhados em dezenas de papeis durante o dia, podermos abrir o coração e dizer que precisamos de isto ou aquilo. que sentimos, que nos dói, que nos alegra. ter um coração hoje é mais penoso do que ter uma divida ao banco. Actualmente, precisar é sinal de que não nos safamos com o que temos, dizer que precisamos é, na maior parte das cabeças, acharem que não conseguimos sem, quando não até conseguimos (mas não é a mesma coisa).
Eu sei que hoje em dia é fácil matar alguém da nossa vida, basta bloquear de todas as redes sociais e do telemóvel (se não souberem como se faz, eu ensino, sou pro nisto) mas não sei até que ponto é saudável matar a pessoa em vez de a lembrar como alguém que, algures, nos enriqueceu e, vejam lá a loucura, saber dela não como quem faz parte da vida mas sim como quem já fez e nos moldou.
Falar do que nos dói, do que nos faz feliz, dizer que sentimos falta, pedirmos desculpa ou mesmo que nos desiludimos não deveria ser um sinal de fraqueza mas sim de coragem, coragem de termos decidido deitar para fora o que mais valioso temos, o coração, os sentimentos. fraqueza não é sentir, fraqueza é negar o que sentimos. coragem é saber que, depois de tudo deitado cá para fora, continuamos vivos e prontos para as consequências. sejamos homens ou mulheres. os animais já o fazem sem pensarem muito, vejam lá isso.
uma, duas, quarenta coisinhas que deves saber sobre mim
não sou tão segura quanto pareço mas também não tão insegura como te quero parecer. gosto de poucas pessoas mas essas gosto em demasia. não te admires de não me entenderes porque também não me entendo, não é tão mau assim, é sempre uma surpresa saber como vou reagir mas desde que me mantenhas o coração quente, eu fico calma, o problema é quando fico confusa, fico sem saber com reagir ou pensar e ai há um curto circuito e volto a ter 12 anos. freud deve explicar, eu nao.
Farto me de falar mal da minha família mas nao te atrevas a fazer o mesmo. gosto de vinho e queijo. e gosto de cozinhar, de carne crua e pepino. adormeço com series em repeat porque a rotina me sabe bem. não gosto de surpresas mas adoro fazê-las. posso ser marota debaixo da mesa num jantar de família no natal mas ficar corada se me quiseres fazer o mesmo. adoro o meu trabalho e levo-o para casa. para o bem ou mal. tanto posso te contar que estive com um casal que se conheceu numa sex shop há vinte anos e adorei assim como um grupo filho de puta tao merdoso que os meti num barco com levante a levar porrada e a vomitar. nao esperes muita atividade física, os carros foram inventados para evitarmos caminhadas mas se for no meio da serra de Arrábida a ver se encontramos raposas, estou lá. gosto de choco frito.nao ligo a dinheiro. não gosto de praia, acho demasiado calor e areia e agua mas fico debaixo do guarda sol a ler. prometo. tenho imensa bagagem mas vais gostar dela. e tenho imensos caes e vais gostar deles também, especialmente do meu, o que parece um gato, sempre a metro e meio de mim mas nunca se afasta mais, não me larga, é o meu anjo da guarda. nao gosto de matilhas, de bullying e sou sempre pelo mais fraco. geralmente só descobrem que sou boa pessoa quando sou a única a nao largar depois de toda a gente ter desistido. gosto de dormir e de ronha. a minha irmã e chefe, duas pessoas que me ajudavam a ser melhor decidiram mudar de país e isso deixa-me frágil. gosto de poucas pessoas mas depois quando gosto sou dependente delas e preciso tê-las próximas. tenho twitter mas espero que nao o descubras, é o único sitio onde posso escrever o que me apetece. também tenho fb porque acredito na partilha de vídeos de cães fofinhos. Quero conhecer a Itália, também quero ver auroras boreais e tudo isso de carro. tenho péssimo gosto musical mas orgulho-me dele. gosto de cremes perfumados, só tenho dois perfumes. acredito em amuletos da sorte, tinha uns brincos que me traziam coisas boas, perdi um e meti o outro como porta chaves. falo sozinha e sou trapalhona. danço e canto no carro mas sozinha porque não quero ser responsável pela morte de ninguém. gosto de atenção, de mensagens logo de manhã, de partilha, de me sentir princesa. aqui não há mas. gosto mesmo. não faço fretes. não faço favores. vou de cabeça, arrisco, nao quero saber, acredito que vai correr tudo bem, acredito em finais felizes, acredito em arriscar e aprender. acredito em impulsos e em demonstrações. não sei se continuas a querer arriscar.
Farto me de falar mal da minha família mas nao te atrevas a fazer o mesmo. gosto de vinho e queijo. e gosto de cozinhar, de carne crua e pepino. adormeço com series em repeat porque a rotina me sabe bem. não gosto de surpresas mas adoro fazê-las. posso ser marota debaixo da mesa num jantar de família no natal mas ficar corada se me quiseres fazer o mesmo. adoro o meu trabalho e levo-o para casa. para o bem ou mal. tanto posso te contar que estive com um casal que se conheceu numa sex shop há vinte anos e adorei assim como um grupo filho de puta tao merdoso que os meti num barco com levante a levar porrada e a vomitar. nao esperes muita atividade física, os carros foram inventados para evitarmos caminhadas mas se for no meio da serra de Arrábida a ver se encontramos raposas, estou lá. gosto de choco frito.nao ligo a dinheiro. não gosto de praia, acho demasiado calor e areia e agua mas fico debaixo do guarda sol a ler. prometo. tenho imensa bagagem mas vais gostar dela. e tenho imensos caes e vais gostar deles também, especialmente do meu, o que parece um gato, sempre a metro e meio de mim mas nunca se afasta mais, não me larga, é o meu anjo da guarda. nao gosto de matilhas, de bullying e sou sempre pelo mais fraco. geralmente só descobrem que sou boa pessoa quando sou a única a nao largar depois de toda a gente ter desistido. gosto de dormir e de ronha. a minha irmã e chefe, duas pessoas que me ajudavam a ser melhor decidiram mudar de país e isso deixa-me frágil. gosto de poucas pessoas mas depois quando gosto sou dependente delas e preciso tê-las próximas. tenho twitter mas espero que nao o descubras, é o único sitio onde posso escrever o que me apetece. também tenho fb porque acredito na partilha de vídeos de cães fofinhos. Quero conhecer a Itália, também quero ver auroras boreais e tudo isso de carro. tenho péssimo gosto musical mas orgulho-me dele. gosto de cremes perfumados, só tenho dois perfumes. acredito em amuletos da sorte, tinha uns brincos que me traziam coisas boas, perdi um e meti o outro como porta chaves. falo sozinha e sou trapalhona. danço e canto no carro mas sozinha porque não quero ser responsável pela morte de ninguém. gosto de atenção, de mensagens logo de manhã, de partilha, de me sentir princesa. aqui não há mas. gosto mesmo. não faço fretes. não faço favores. vou de cabeça, arrisco, nao quero saber, acredito que vai correr tudo bem, acredito em finais felizes, acredito em arriscar e aprender. acredito em impulsos e em demonstrações. não sei se continuas a querer arriscar.
o que eu quero é que sejas feliz .I.
Há a mania de que ficamos felizes pelos outros quando decidem ir embora. mesmo que nos tenham trocado por uma vaca de trezentos quilos e com mais maquilhagem do que o nosso armário, há o politicamente correto de informar que "ficamos felizes por eles". a amizade e o amor hoje são tão higiénicos que somos felizes pelos outros, por os outros, pondo a nossa felicidade em segundo, terceiro ou mesmo quarto plano porque é assim que somos, racionais e lógicos. gritamos na almofada, metemos o nosso melhor sorriso porque o importante é a vossa felicidade, nao a nossa. até ficamos amigos da nossa paixao só para poder cuidar dele enquanto o ouvimos falar da ex. pó caralho.
A minha chefe e amiga informou me que iria mudar se para os Açores. vai deixar de ser minha manager, provavelmente minha amiga. Se fico feliz por ela? ainda não. ainda lambo a ferida de ela me deixar e, provavelmente nunca mais a ver. É que isto de criar laços é uma merda, demoras eternidades para dizer que nao gostas de surpresas, que no fundo és sensível ou mesmo insegura, a pessoa aprende a lidar contigo, há essa coisa espetacular chamada confiança e as coisas encaixam para, um dia, a vida correr o seu próprio destino e se afastarem. se estou chateada com ela? não. Se estou feliz por ela? ainda nao. ainda penso na falta que me vai fazer, no incentivo que me dava e, especialmente, na maneira como a conseguia fazer rir no meio de tragédias. não quero estar feliz por ela, nem por ela nem por ninguém que me faz falta, lamento. vocês fazem me falta e dói. a falta dói a quem sente. nao há cá "o importante é seres feliz" oh porra, não, o importante é sermos felizes, não tu feliz e eu miserável porque nao vou ter alguém que me vai incentivar a entrar numa arena com 60 franceses mal dispostos. sentir falta dói, mesmo que a pessoa em questão vá para melhor, nós ficamos aqui, na mesma, com um buraco no coraçao e a sensaçao de perda.
A minha chefe vai-se embora e informou-me com pezinho de lã, eu respondi com grunhido de leão. prometo que ficarei feliz um dia, penso que talvez daqui dois três mas, por enquanto, deixem-me lamber a ferida da falta que me faz. a falta que todos os que se foram embora me fazem. depois sim, fico feliz por eles.
A minha chefe e amiga informou me que iria mudar se para os Açores. vai deixar de ser minha manager, provavelmente minha amiga. Se fico feliz por ela? ainda não. ainda lambo a ferida de ela me deixar e, provavelmente nunca mais a ver. É que isto de criar laços é uma merda, demoras eternidades para dizer que nao gostas de surpresas, que no fundo és sensível ou mesmo insegura, a pessoa aprende a lidar contigo, há essa coisa espetacular chamada confiança e as coisas encaixam para, um dia, a vida correr o seu próprio destino e se afastarem. se estou chateada com ela? não. Se estou feliz por ela? ainda nao. ainda penso na falta que me vai fazer, no incentivo que me dava e, especialmente, na maneira como a conseguia fazer rir no meio de tragédias. não quero estar feliz por ela, nem por ela nem por ninguém que me faz falta, lamento. vocês fazem me falta e dói. a falta dói a quem sente. nao há cá "o importante é seres feliz" oh porra, não, o importante é sermos felizes, não tu feliz e eu miserável porque nao vou ter alguém que me vai incentivar a entrar numa arena com 60 franceses mal dispostos. sentir falta dói, mesmo que a pessoa em questão vá para melhor, nós ficamos aqui, na mesma, com um buraco no coraçao e a sensaçao de perda.
A minha chefe vai-se embora e informou-me com pezinho de lã, eu respondi com grunhido de leão. prometo que ficarei feliz um dia, penso que talvez daqui dois três mas, por enquanto, deixem-me lamber a ferida da falta que me faz. a falta que todos os que se foram embora me fazem. depois sim, fico feliz por eles.
é o que é (nao vão entender mas é o que é)
a minha irmã vem do terapeuta e diz me que tem de enfrentar quem a incomoda. respondo que tem de escolher as suas batalhas. ela é a minha melhor amiga mesmo que não lhe conte o que me envergonha porque ao não contar, talvez não tenha acontecido e continuo imaculada na sua vida. diz que não é como eu que passo ao lado do que me incomoda e cicatrizo sozinha e reparo que não me conhece assim tão bem. não sabe que dentro de mim vive um pai português e uma mãe alemã e que cada um deles vem à superfície quando menos espero. Não chega a ser bipolaridade, é abrir a boca e o coração e lembrar que sou o meu pai por ser demasiado sangue quente e emotiva e merdas e abrir a boca 24 horas depois e ouvir-me na voz da minha mãe, fria, decidida e sem hipóteses de segunda oportunidade. não é mau, não é bom, como odeio que digam, "é o que é". no outro dia, o meu colega disse aos meus hospedes que sou cão que ladra mas do mais leal e fofo que existe, isso lembra-me que em cada reunião, começo por me apresentar com um "não sou tão rude quanto pareço" e, ironicamente, no fim de cada estadia, os meus hospedes abraçam-me desajeitadamente dizendo que não sou tão rude quanto pareço. partiram-me o coração há pouco tempo e estou a colar os pedaços. lembro me sempre de uma merda qualquer posta no insta que diz "i was never asking for too much, you were an idiot for making me believe i deserved less". a minha irmã, durante alguns tempos, desabafava que precisava de conhecer outra pessoa para cicatrizar e recomeçar. entendo. é o que é, meu deus como odeio essa frase. a minha irmã voltou do terapeuta e diz que tem de enfrentar quem a incomoda e eu continuo a achar que tem de escolher as suas batalhas, a maior parte das vezes deixo passar porque não quero gastar energia em merdas que não interessam; meticulosamente escolho o que mais me aborrece e quando formalizo a "batalha" faço de tudo para a ganhar. consegui fechar um hotel assim, perdi dez anos de vida mas consegui. partiram-me o coração mas é bem feita, na voz da minha mãe consigo ouvir me a chamar "ca burra" enquanto o meu pai cola os pedaços com amigos e trabalho. faço print de frases motivacionais enquanto espero o trabalho começar e depois esqueço me do que me doeu.
Tive um grupo de 35 pessoas esta semana. ia fazer uma apresentação numa sala escura com ar condicionado. eles estavam cansados e pedi a minha "manager" se podia alterar tudo e ir tomar o pequeno almoço com eles, aproveitar e fazer a reunião lá. "faz o que achas melhor" e fiz e correu tão bem que fui falatório na empresa. "you think outside the box" e não, não é o que é, é o que me faz feliz e, consequentemente, sobreviver e viver. acredito mesmo nisso e acredito em tudo o que aparece antes do "the end" nos filmes românticos. acredito no afonso cruz que achava que quando se conhecia alguém, se queria começar o mais depressa o passado para que as recordações fossem muitas e acredito nos sinais, que quando dois não querem um não pode e acredito no poder da mente que me afasta de tudo o que me faz mal e acredito que mesmo a minha irmã, quando vem do terapeuta e me diz que tem de enfrentar os seus demónios, lhe aviso que nem todos os demónios têm de ser combatidos. acredito em tudo menos no "é o que é" porque não é o que é, é o que queremos. eu quero muito.
Tive um grupo de 35 pessoas esta semana. ia fazer uma apresentação numa sala escura com ar condicionado. eles estavam cansados e pedi a minha "manager" se podia alterar tudo e ir tomar o pequeno almoço com eles, aproveitar e fazer a reunião lá. "faz o que achas melhor" e fiz e correu tão bem que fui falatório na empresa. "you think outside the box" e não, não é o que é, é o que me faz feliz e, consequentemente, sobreviver e viver. acredito mesmo nisso e acredito em tudo o que aparece antes do "the end" nos filmes românticos. acredito no afonso cruz que achava que quando se conhecia alguém, se queria começar o mais depressa o passado para que as recordações fossem muitas e acredito nos sinais, que quando dois não querem um não pode e acredito no poder da mente que me afasta de tudo o que me faz mal e acredito que mesmo a minha irmã, quando vem do terapeuta e me diz que tem de enfrentar os seus demónios, lhe aviso que nem todos os demónios têm de ser combatidos. acredito em tudo menos no "é o que é" porque não é o que é, é o que queremos. eu quero muito.
a puta e a maçã
conto isso imensas vezes; a minha mãe, enfermeira de profissão, a fazer turnos como uma louca, costumava deixar me todos os dias um chocolate e uma maçã na mala para o lanche. eu sei que já te contei isso mas adiante. antes de me deitar, lembro-me de a ver a limpar a maçã, com um pano de cozinha e meter, junto com o chocolate, dentro da minha mala da escola.
Óbvio que, uma vez na escola, havia uma regra secreta em que trocávamos os chocolates, óbvio que ninguém queria saber de maçãs para nada, importante era o chocolate e não havia mal, desde que fosse chocolate, na boa.
Mas um dia vi a minha maça a ser mordida por outra pessoa e pela primeira vez tive um ataque de raiva. a maçã que a minha mãe, tao ocupada, fez brilhar estava a ser mordida por outra puta qualquer. o segundo ataque de raiva aconteceu na secundária quando gozaram com uma camisa de folhos que o meu tio tinha oferecido (entretanto tinha falecido). lembro-me de poucas coisas na infância mas lembro-me da maça, depois da luta, ter ficado em cima da televisão que usavam para nos distrair depois das aulas.
isto nem sequer é um trauma de infância, é a prova de que desde cedo tenho essa mania de que quando o esforço para agradar alguém tem de ser valorizado e não aproveitado por outra pessoa qualquer e talvez seja por isso que tenha poucas pessoas na minha vida, repara, contam se pelos dedos das duas maos quem eu tenho gravado no coração (rima. back off, família carreira) tenho poucas pessoas mas sei que fizeram brilhar a maçã e por isso lhes agradeço profundamente.
O amor, a dedicação, o afeto, nao sao coisas que se dão por dá cá aquela palha. não podem ser desperdiçado com o risco de poderem virar, um dia, em amargura. se eu não aceito o amor, afeto ou dedicação de alguém que nao me interessa, é porque nao acho que seja merecedora disso, não quero aproveitar-me disso, O tempo dedicado deveria ser a prova do gosto pela pessoa e não ser aquela puta que abre as pernas e o coração para morder uma maçã que nem sequer era destinado a ela.
deita.-se demasiado amor fora, usa-se demasiado amor para encher egos e outras merdas que nos faltam e nunca pensamos no esforço que o outro, tanso, com tanto para fazer, ainda perdeu tempo para brilhar uma maça para usufruirmos. Somos umas putas, no fundo, a aceitar qualquer coisa vindo de qualquer pessoa desde que nos sintamos bem sem sequer pensar no que podemos oferecer, dar ou agradecer.
A rapariga não comeu a maçã- a outra que gozou com a minha camisa aos folhos ficou com a cana do nariz partido e jurei para ser mais esperta sobre isto de brilhar maçãs. tenho mesmo de ser.
Óbvio que, uma vez na escola, havia uma regra secreta em que trocávamos os chocolates, óbvio que ninguém queria saber de maçãs para nada, importante era o chocolate e não havia mal, desde que fosse chocolate, na boa.
Mas um dia vi a minha maça a ser mordida por outra pessoa e pela primeira vez tive um ataque de raiva. a maçã que a minha mãe, tao ocupada, fez brilhar estava a ser mordida por outra puta qualquer. o segundo ataque de raiva aconteceu na secundária quando gozaram com uma camisa de folhos que o meu tio tinha oferecido (entretanto tinha falecido). lembro-me de poucas coisas na infância mas lembro-me da maça, depois da luta, ter ficado em cima da televisão que usavam para nos distrair depois das aulas.
isto nem sequer é um trauma de infância, é a prova de que desde cedo tenho essa mania de que quando o esforço para agradar alguém tem de ser valorizado e não aproveitado por outra pessoa qualquer e talvez seja por isso que tenha poucas pessoas na minha vida, repara, contam se pelos dedos das duas maos quem eu tenho gravado no coração (rima. back off, família carreira) tenho poucas pessoas mas sei que fizeram brilhar a maçã e por isso lhes agradeço profundamente.
O amor, a dedicação, o afeto, nao sao coisas que se dão por dá cá aquela palha. não podem ser desperdiçado com o risco de poderem virar, um dia, em amargura. se eu não aceito o amor, afeto ou dedicação de alguém que nao me interessa, é porque nao acho que seja merecedora disso, não quero aproveitar-me disso, O tempo dedicado deveria ser a prova do gosto pela pessoa e não ser aquela puta que abre as pernas e o coração para morder uma maçã que nem sequer era destinado a ela.
deita.-se demasiado amor fora, usa-se demasiado amor para encher egos e outras merdas que nos faltam e nunca pensamos no esforço que o outro, tanso, com tanto para fazer, ainda perdeu tempo para brilhar uma maça para usufruirmos. Somos umas putas, no fundo, a aceitar qualquer coisa vindo de qualquer pessoa desde que nos sintamos bem sem sequer pensar no que podemos oferecer, dar ou agradecer.
A rapariga não comeu a maçã- a outra que gozou com a minha camisa aos folhos ficou com a cana do nariz partido e jurei para ser mais esperta sobre isto de brilhar maçãs. tenho mesmo de ser.
Há algo de reconfortante na loucura dos outros
Quando vim para Portugal, achei, durante uns tempos, que os meus pais pagavam a jovens para serem meus amigos. true story. só mais tarde cheguei a conclusão de que isso nunca seria possível; não porque sou uma pessoa agradável e sem essa necessidade mas porque nunca gastariam dinheiro comigo. Isso obviamente tem uma razão; o meu primo, deficiente mental profundo, tinha arranjado emprego numa carpintaria devido a um acordo entre todos os meus tios que pagariam ao dono X que, depois, seria entregue ao moço como "ordenado". mas eu não tenho deficiência profunda nem jeito para carpintaria.
Sheldon cooper (não sabes, procura), é um autista incrível que me faz rir todas as noites antes de adormecer. a genuinidade da personagem derrete-me, a sinceridade cruel, o horror a mudanças e a aversão a intimidade São tiques que me fazem mesmo sorrir. Lembro-me de uma vez ele explicar nem me lembro a quem que a sua tara por comboios vem de pequeno, quando não entendia o mundo e o achava uma confusão tremenda, agarrava-se aos comboios como a única coisa que podia organizar; o roteiro, a velocidade, os horários, tudo. aquele era o mundo em que ele queria viver.
Depois temos a espetacular Villanelle que me apaixonou logo no primeiro minuto e não tem desiludido na 2a temporada, sem noção de bem ou mal, pede ao colega de quarto que tem parafuso na anca e acaba de sair do coma para lhe ir buscar agua, diz-lhe que parece um monstro quando o vê sem o penso e fica chateada pq os pais morreram no acidente e agora não lhe podem emprestar dinheiro. não tem consciência do bem nem do mal, mata e ama numa questão de minutos e sempre de maneira "divertida" porque "normal is boring".
Há algo de reconfortante na loucura dos outros, naqueles que passaram dos pensamentos descabidos que tínhamos algures à ação. que disseram o que sempre quisemos dizer mas que tivemos a decência de calar. quantas vezes consegui ver o meu corpo levantar e mandar à merda e no entanto ficava ali. quantas vezes me apeteceu bater com a cabeça de um anormal qualquer e quantas vezes me apeteceu fazer o que bem me apetecesse mesmo que isso magoaria alguém ( ou a mim)
Poder ver a loucura dos outros é como vingar tudo o que a normalidade não nos deixa fazer. e é tão bom
Há muitos anos, numa banheira que eu possuia e que me ficava larga, dei um dia o berro. lembro-me como se fosse ontem, enrolada com uma toalha na cabeça, deixei as costas nuas e ainda molhadas descerem a parede fria e caí no chao desesperada. chorei e consegui ouvir as lagrimas deslizarem no chão da minha casa de banho de luxo, o som que a lagrima fazia na madeira era assustador, pelo peso que ela tinha e pelo que ela representava. lembro-me desse dia porque naquele dia mudei, depois do banho saí dali como se nada acontecesse quando tudo tinha mudado.
Há uma semana, dei o berro numa casa de banho num apartamento em oeiras, alugado, toalhas incluidas. lembro-me de encher a banheira e chorar lá dentro, o som das lagrimas a cairem na agua com espuma lembraram-me a outra vez mas desta, eu nao tinha chão de madeira para me apoiar nem maneira de fazer de conta que nada tinha acontecido mesmo que tudo tinha mudado. e mesmo assim consegui, outra vez, renascer.
Há uma semana, dei o berro numa casa de banho num apartamento em oeiras, alugado, toalhas incluidas. lembro-me de encher a banheira e chorar lá dentro, o som das lagrimas a cairem na agua com espuma lembraram-me a outra vez mas desta, eu nao tinha chão de madeira para me apoiar nem maneira de fazer de conta que nada tinha acontecido mesmo que tudo tinha mudado. e mesmo assim consegui, outra vez, renascer.
"Preferia estar nenhures com ela do que algures sem ela"
A nova série de Gervais é maravilhosa, já sabíamos q isso iria acontecer, talvez seja melhor do que esperávamos e, surpresa, mostra que no mesmo saco podes ter humor negro, respeito e sensibilidade mas de tudo o que vi (4 episódios) retive me nessa frase e lembrei-me dela várias vezes. "Preferia estar nenhures com ela do que algures sem ela". mudando de assunto, ou talvez nao, tive esta semana várias visitas a terras lindas e, a dada altura, falávamos de viajar por este mundo sozinhos e da frustração que seria nao poder partilhar a beleza com alguém. talvez até seja por isso que tiramos fotos e mostramos assim que chegamos a casa, a sensação deve ser a mesma de quando temos o coração cheio de alegria e gostaríamos de o cortar em fatias para que todos possam saborear o que sentimos. espero que tenha lógica para ti, nao faço muito sentido estes dias.
O problema é que nao é qualquer pessoa, temos mesmo de gostar da pessoa para poder partilhar essas coisas boas. lembro-me de estar na catedral em sevilha e por mais colegas porreiros, fez me falta alguém que iria mesmo gostar daquilo, porque gostaria de o ver feliz. talvez partilhar seja isso, ver a felicidade do outro quando, juntos, se vê a mesma coisa. é como no sexo, por vezes fica-se mais entusiasmado ao ver o outro ter prazer do que se o mesmo fizesse o kamasutra inteiro por ordem alfabética. não sei se já te disse, não tenho feito muito sentido.
Gostar de alguém, querer partilhar a vida ou a semana com alguém não é tao fácil assim. vai além do dar.se bem ou mesmo da disponibilidade de cada um, gostar de alguém, querer essa pessoa na nossa vida vai além de tudo, é ela encher-nos o coração e, lá está, querermos lhe dar uma fatia para que possa sentir o quanto nos faz feliz. é saber que mais ninguém, por melhor que seja, pode causar esse efeito e a vida, por pior que seja com ela, seria bem pior sem. não sei se estás a perceber, faço pouco sentido estes dias.
E é uma merda quando a pessoa que melhora os nossos dias nos diz que pioramos os dela. é uma merda quando a peça encaixa para nós mas é uma pedra no sapato para o outro, é uma merda recusarem a fatia de bolo que queremos dar para que saibam o que sentimos. mesmo assim, a vida é melhor com ela nenhures do que sem ela algures. ha uma rua chamada rua de nenhures em Palmela. costumo chamar lhe de sonhos acordados. preferia estar em sonhos com ela do que algures sem.
What If This Is All The Love You Ever Get?
"Passei do dizer tudo para o não conseguir dizer nada. sem lamentos nem dor, não é o meu lugar dizer. como se quisesse a responsabilidade para outra pessoa que te queira bem, lavo daqui as mãos e espero que descubras porque raio hás de ser o único no sentido correto quando todos os outros carros vão na direcçao contrária, todos felizes e sem acidentes que te queixas sempre de ter. passo do dizer tudo para não dizer nada e temo o dia em que me possa arrepender porque, no fundo, acho que esse dia já chegou e era como se fosse uma prenda que foi entregue a pessoa errada que, por desleixo, a deixou no lixo. não há coincidências e talvez por isso me lembre sempre da tal história do pássaro que cravou o coração no espinho desejando oferecer a rosa vermelha para o seu amigo que de amigo não tinha nada. não és nada. eras me tudo. passei de dizer tudo para não conseguir dizer nada porque foi um erro, um engano, uma história condenada ao fracasso simplesmente porque só era vivida por um. podia dizer te tudo mas não te digo nada porque não é o meu lugar fazer te feliz, não te quero feliz, quero te tão miserável quanto me fizeste ser, suja e iludida. podia dizer te tudo mas não te digo como quem sabe os números do euromilhoes e nao os quer partilhar porque não merece ser rico. és tão pobre. Aguardo toda a doçura do resto me cicatrize a amargura que aqui se sente, aguardo que alguém te adoce sem amargar. passei de dizer tudo para não conseguir dizer nada para fazer de conta que nada disto aconteceu, talvez se fechar os olhos, ninguém me vê, talvez se não falar nisso, não aconteceu. passei de dizer tudo para não conseguir dizer nada e sabe lá deus o que me custa tê lo escrito"
I have a dream
Depois do conan osiris e de tantos outros, decidi que queria ser famosa e já sei como. a coisa é simples; primeiro vou criar um podcast a ler rótulos de embalagens de produtos de limpeza. Pago a umas quantas celebridades esquecidas algures entre o ultimo "prédio do vasco" e convidado especial do "5 para a meia noite" um montante em vales do LIDL (porque vamos fazer uma parceria) e terao de falar do podcast nas redes sociais segurando, obviamente, um pao ou bacalhau do lidl e dizendo "esse podcast é a melhor coisa que já ouvi na minha vida, acompanhado deste pao de sementes/bacalhau demolhado, nao poderia estar mais feliz"
Eu já imagino 90% da população a ouvir o podcast e a achar que topou a mensagem subliminar; "inflamável em conjunto com outros químicos" porque nós somos todos corrosivos e quando nos encontramos, damos cabo do ambiente emocional de cada um, omg esta gaja percebe me" ou quando "enxaguar com agua quando em zonas sensíveis" pode ser que pensem "ela adora o mar, eu adoro o mar. o mar cura"
Porque, convenhamos, hoje em dia, somos comidos por parvos e hai de quem disser o contrário. adoramos tudo o que não entendemos porque dá a sensação que pensamos fora da caixa e somos mais que os outros; não somos, temos só a mania.
Ah! e depois aparecem os que dizem mal do meu podcast (como ousam?) e terei um batalhão de mafiosos a defender-me porque "não percebes nada, deves pensar que aquilo é só ler rótulos de produtos de limpeza, básico de merda"
E eu serei rica, esperta e deixarei o circo arder. palhaços.
Eu já imagino 90% da população a ouvir o podcast e a achar que topou a mensagem subliminar; "inflamável em conjunto com outros químicos" porque nós somos todos corrosivos e quando nos encontramos, damos cabo do ambiente emocional de cada um, omg esta gaja percebe me" ou quando "enxaguar com agua quando em zonas sensíveis" pode ser que pensem "ela adora o mar, eu adoro o mar. o mar cura"
Porque, convenhamos, hoje em dia, somos comidos por parvos e hai de quem disser o contrário. adoramos tudo o que não entendemos porque dá a sensação que pensamos fora da caixa e somos mais que os outros; não somos, temos só a mania.
Ah! e depois aparecem os que dizem mal do meu podcast (como ousam?) e terei um batalhão de mafiosos a defender-me porque "não percebes nada, deves pensar que aquilo é só ler rótulos de produtos de limpeza, básico de merda"
E eu serei rica, esperta e deixarei o circo arder. palhaços.
whatever float your boat
Acredito que a dor faz crescer quando és pequeno. todas as crianças precisam de alguma dor para aprenderem a socializar, respeitar e amar o próximo. óbvio que com dor falo de deceção, desilusão, abandono da namorada pelo colega de cadeira na quarta classe ou revolta porque o pai não empresta 400 euros para um par de ténis. espero que não estejas a confundir com queimaduras de cigarro ou obrigatoriedade em ver o "prédio do Vasco" antes de ir para a cama.
na formação da personalidade, é fundamental alguma dor para fortificar. é um adubo, um suplemento vitaminico, vá. torna-te humano e com sorte empatizas com outros.
Na idade adulta já não vejo necessidade nenhuma nisso da dor. não vejo o lado positivo de um adulto, já com uma vida tão chata cheia de responsabilidades, ter de sofrer, alias, acho injusto um adulto sofrer, é como se além de coxo lhe passam uma rasteira e cair com a cara no estrume. As coisas deveriam ser mais fáceis, mais simples. já basta a rotina dos dias, as contas para pagar, a colega de trabalho que só ouve ariana grande e o chefe que se gaba de comer pitas de 20 anos enquanto continuas com a tua mulher que engordou 30 quilos mas lembras te como quem se convence "é tao querida e gosta tanto de mim", agora cá desilusões, traições, corações partidos ou - pior - a morte dos teus familiares mais velhos, não é justo nem faz sentido, vais usar a experiência onde? debaixo da terra? noutra vida? nada, não vais usar em lado nenhum, só vai fazer com que amargues e seques (e deus sabe o quanto tenho pavor de amargar). O sofrimento na idade adulta não faz sentido, já tivemos a adolescência que nos ensinou que não devíamos ser parvos e a juventude para aceitar que isto não vai ser um conto de fadas. Chegas a esta idade e deveria ser um lar de terceira idade para jovens, um sitio não muito perfeito mas onde podes usufruir a vida que - ta-da - sabes que vai acabar (espero não spoilar nada)
não vais crescer mais e mesmo se cresceres, nao vais usar essa sabedoria em lado nenhum. talvez escrevas um livro e sejas conhecido algures dez anos depois da tua morte, talvez possas ser speaker corner e alguém te mandar uma moeda ou um agasalho se for inverno mas pouco mais.
e aqui vem a minha frase preferida; whatever works que tem uma alternância para "whatever float your boat".
e daí, hoje, entendo melhor os ginásios, os convívios, a bebida e os fumos. o prozac e o victan, a esperança cada vez que se entrega o euromilhões e o entusiasmo quando se conhece uma nova pessoa, a fuga de tudo o que possa doer, o mel em cima do limão para que se possa beber sem careta. a fuga da dor não é cobardia, é achar, simplesmente, que não é necessária.
na formação da personalidade, é fundamental alguma dor para fortificar. é um adubo, um suplemento vitaminico, vá. torna-te humano e com sorte empatizas com outros.
Na idade adulta já não vejo necessidade nenhuma nisso da dor. não vejo o lado positivo de um adulto, já com uma vida tão chata cheia de responsabilidades, ter de sofrer, alias, acho injusto um adulto sofrer, é como se além de coxo lhe passam uma rasteira e cair com a cara no estrume. As coisas deveriam ser mais fáceis, mais simples. já basta a rotina dos dias, as contas para pagar, a colega de trabalho que só ouve ariana grande e o chefe que se gaba de comer pitas de 20 anos enquanto continuas com a tua mulher que engordou 30 quilos mas lembras te como quem se convence "é tao querida e gosta tanto de mim", agora cá desilusões, traições, corações partidos ou - pior - a morte dos teus familiares mais velhos, não é justo nem faz sentido, vais usar a experiência onde? debaixo da terra? noutra vida? nada, não vais usar em lado nenhum, só vai fazer com que amargues e seques (e deus sabe o quanto tenho pavor de amargar). O sofrimento na idade adulta não faz sentido, já tivemos a adolescência que nos ensinou que não devíamos ser parvos e a juventude para aceitar que isto não vai ser um conto de fadas. Chegas a esta idade e deveria ser um lar de terceira idade para jovens, um sitio não muito perfeito mas onde podes usufruir a vida que - ta-da - sabes que vai acabar (espero não spoilar nada)
não vais crescer mais e mesmo se cresceres, nao vais usar essa sabedoria em lado nenhum. talvez escrevas um livro e sejas conhecido algures dez anos depois da tua morte, talvez possas ser speaker corner e alguém te mandar uma moeda ou um agasalho se for inverno mas pouco mais.
e aqui vem a minha frase preferida; whatever works que tem uma alternância para "whatever float your boat".
e daí, hoje, entendo melhor os ginásios, os convívios, a bebida e os fumos. o prozac e o victan, a esperança cada vez que se entrega o euromilhões e o entusiasmo quando se conhece uma nova pessoa, a fuga de tudo o que possa doer, o mel em cima do limão para que se possa beber sem careta. a fuga da dor não é cobardia, é achar, simplesmente, que não é necessária.
quanto mais me bates
Primeiro foram os elogios com a série "you" história de um stalker que mata e magoa quem se aproxima do seu "amor". Toda a gente suspirou pelo doido porque - ca burras - ele era giro e tinha sentido de humor. Confesso que até eu engracei com a personagem e foi giro ver as coisas pelo lado dele até perceber que o lado dele estava errado por mais sexy e engraçado ele fosse.
Depois Ted Bundy, o tipo que matou aleatoriamente nem sei quantas miúdas violando depois o corpo. ah é giro, ah tem nível e ah mas é advogado. A coisa tomou proporções de tal tamanho que até a netflix e o ator de "you" pediu para "keep it in your pants". literalmente.
E disso ninguém fala, ninguém procura entender porque ainda hoje se na primária ele dá um pontapé é porque se quer meter com ela e não sabe como, Ainda hoje quando o gajo faz ghosting acham que é porque tímido/magoado/morto. Ainda há muito por resolver e não é só na cabeça dos homens, As mulheres também devem começar a achar feio quem por mais bonito seja não respeita o outro. A mulher também tem de, por mais amoroso seja com ela, desconfiar quando ele trata mal o empregado de mesa e isso parece me tão básico e no entanto ainda existe imensa gente que acha que não, procurando justificações descabidas para qualquer passo em falso armando se em psicologia de revista de euro e meio para compreender o incompreensível.
Andamos muito concentrados no politicamente correto, no humor insípido que nem sequer faz rir, nas descrições neutras não vá uma característica magoar alguém no cú de judas e com cuidado no trato oficial não vá depois a coisa ser mal interpretada mas dá se o direito de termos miúdas a suspirar por assassinos só porque giros e - lol - advogados. é mesmo necessário pensar nisso e - poupem-me, antes de feminista sou humanista, seja lá o que isso quer dizer.
Depois Ted Bundy, o tipo que matou aleatoriamente nem sei quantas miúdas violando depois o corpo. ah é giro, ah tem nível e ah mas é advogado. A coisa tomou proporções de tal tamanho que até a netflix e o ator de "you" pediu para "keep it in your pants". literalmente.
E disso ninguém fala, ninguém procura entender porque ainda hoje se na primária ele dá um pontapé é porque se quer meter com ela e não sabe como, Ainda hoje quando o gajo faz ghosting acham que é porque tímido/magoado/morto. Ainda há muito por resolver e não é só na cabeça dos homens, As mulheres também devem começar a achar feio quem por mais bonito seja não respeita o outro. A mulher também tem de, por mais amoroso seja com ela, desconfiar quando ele trata mal o empregado de mesa e isso parece me tão básico e no entanto ainda existe imensa gente que acha que não, procurando justificações descabidas para qualquer passo em falso armando se em psicologia de revista de euro e meio para compreender o incompreensível.
Andamos muito concentrados no politicamente correto, no humor insípido que nem sequer faz rir, nas descrições neutras não vá uma característica magoar alguém no cú de judas e com cuidado no trato oficial não vá depois a coisa ser mal interpretada mas dá se o direito de termos miúdas a suspirar por assassinos só porque giros e - lol - advogados. é mesmo necessário pensar nisso e - poupem-me, antes de feminista sou humanista, seja lá o que isso quer dizer.
yoga - pequeno ensaio
Cada vez que fico triste, faço algo que me mete medo. Isto explica algures a franja, a tatuagem, os sapatos ortopédicos ou mesmo a mudança de casa. Desta vez e já não tendo muita pachorra para grandes alterações, decidi inscrever me num ginásio. sim. eu.
Já fiz ginásio; pilates, step, localizada, jazz, quase tudo menos spinning porque para pedalar e ficar sempre no mesmo sitio, já basta a minha vida. hoje experimentei yoga porque sim, estou mesmo triste e era uma coisa mesmo assustadora.
Yoga é aquela coisa que não é nem ginástica nem meditação. metes uns fumos, uns sons de chuva a cair e pedes aos teus alunos que, durante dez minutos, fechem os olhos e não pensem em nada. entretanto vais ao café mais próximo pedir uma tosta mista extra queijo e fumas um cigarro enquanto os tansos estão deitados com as palmas das mãos viradas para o sol (está a chover, porra) a não pensarem em nada. eu pensei no quanto as pessoas que mais gosto deveriam respeitar mais as minhas inseguranças em vez de me mandarem para o caralho.
Depois (agora vem a parte gira) libertas o chacra (xacra? chakra? xakra?) da tua alma que fica (ta-da) na garganta. yep, isso existe e fazê-lo ainda é mais ridículo do que soa. na expiração, soltas um rosnar concentrando te na voz. supostamente, liberta tudo o que querias dizer e não disseste (devias ter respeitado as minhas inseguranças como eu respeito as tuas).
depois de tudo dito, vais para posições que não lembram nem ao mentor do kamasutra. é suposto relaxar-te. lembro-me de uma - a vela - em que deitada, levantas o teu corpo todo e o alinhas aos teus ombros. a puta da professora perguntou me se eu estava confortável e ficou ofendida quando eu retorqui "o que é que acha?". outra em que acho que apertei um nervo qualquer, fiquei com tonturas e vi o filme da minha vida. era suposto abrir os chakras (xakras?) do coraçao ligado a terra, já o tinha feito há uns dias atrás mas a dor era outra. ah.
No fim, ficas outros dez minutos relaxada (lol) sugerem um cobertor para a posição fetal (não me lembro de fazer isso sem uma garrafa de vinho ao lado) e ela vai passando com um bongo, uma coisa qualquer que lembra os sinos da igreja e vai tocando perto dos nossos ouvidos. quando foi a minha vez, ouvi o som sussurrar-me que nem toda a gente te vai entender mas como não tinha cobertor nem garrafa de vinho, não chorei como costumo fazer em posição fetal.
acaba com um abraço a nós próprios, uma coisa meio triste, digno de foto a anti depressivos, estamos ali a abraçar o nosso corpo humilhado pelas figuras que fizemos como quem diz "foi a primeira e a ultima vez" e foi. a primeira e ultima vez. devias ter respeitado as minhas inseguranças em vez de me mandar pró caralho.
Namasté :)
O rouxinol e a rosa
lembro-me, há imenso tempo, nos domingos em que ficava com a minha irmã em casa a ver televisão enquanto a minha mae fazia algo intragável para o almoço e o meu estava algures a respirar, lembro-me, escrevo eu, que apanhamos, a minha irma e eu (nunca se diz "eu e a minha irmã by the way) um desenho animado que, anos depois, descobri ser de Oscar Wilde. era a história (e agora vou fazer copy paste porque nao ha pachorra)
"Ela disse que dançaria comigo se eu lhe trouxesse rosas vermelhas", exclamou o jovem Estudante, "mas em todo o meu jardim não há nenhuma rosa vermelha."
Do seu ninho no alto da azinheira, o Rouxinol o ouviu, e olhou por entre as folhas, e ficou a pensar.
"Não há nenhuma rosa vermelha em todo o meu jardim!", exclamou ele, e seus lindos olhos encheram-se de lágrimas. "Ah, nossa felicidade depende de coisas tão pequenas! Já li tudo que escreveram os sábios, conheço todos os segredos da filosofia, e no entanto por falta de uma rosa vermelha minha vida infeliz."
"Finalmente, eis um que ama de verdade", disse o Rouxinol. "Noite após noite eu o tenho cantado, muito embora não o conhecesse: noite após noite tenho contado sua história para as estrelas, e eis que agora o vejo. Seus cabelos são escuros como a flor do jacinto, e seus lábios são vermelhos como a rosa de seu desejo; porém a paixão transformou-lhe o rosto em marfim pálido, e a cravou-lhe na fronte sua marca."
"Amanhã haverá um baile no palácio do príncipe", murmurou o jovem Estudante, "e minha amada estará entre os convidados. Se eu lhe trouxer uma rosa vermelha, ela há de dançar comigo até o dia raiar. Se lhe trouxer uma rosa vermelha, eu a terei nos meus braços, e ela deitará a cabeça no meu ombro, e sua mão ficará apertada na minha. Porém não há nenhuma rosa vermelha no meu jardim, e por isso ficarei sozinho, e ela passará por mim sem me olhar. Não me dará nenhuma atenção, e meu coração será destroçado."
"Sim, ele ama de verdade", disse o Rouxinol. "Aquilo que eu canto, ele sofre; o que para mim é júbilo, para ele é sofrimento. Sem dúvida, o Amor é uma coisa maravilhosa. É mais precioso do que as esmeraldas, mais caro do que as opalas finas. Nem pérolas nem romãs podem comprá-lo, nem é coisa que se encontre à venda no mercado. Não é possível comprá-lo de comerciante, nem pesá-lo numa balança em troca de ouro".
"Os músicos no balcão", disse o jovem Estudante, "tocarão seus instrumentos de corda, e meu amor dançará ao som da harpa e do violino. Dançará com pés tão leves que nem sequer hão de tocar no chão, e os cortesãos, com seus trajes coloridos, vão cercá-la. Porém comigo ela não dançará, porque não tenho nenhuma rosa vermelha para lhe dar." E jogou-se na grama, cobriu o rosto com as mãos e chorou.
"Por que chora ele?", indagou um pequeno Lagarto Verde, ao passar correndo com a cauda levantada.
"Sim, por quê?", perguntou uma Borboleta, que esvoaçava em torno de um raio de sol.
"Sim, por quê?", sussurrou uma Margarida, virando-se para sua vizinha, com uma voz suave.
"Ele chora por uma rosa vermelha", disse o Rouxinol.
"Uma rosa vermelha?", exclamaram todos. "Mas que ridículo!" E o pequeno Lagarto, que era um tanto cínico, riu à grande.
Porém o Rouxinol compreendia o segredo da dor do Estudante, e calou-se no alto da azinheira, pensando no mistério do Amor.
De repente ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o arvoredo como uma sombra, e como uma sombra cruzou o jardim.
No centro do gramado havia uma linda Roseira, e quando a viu o Rouxinol foi até ela, pousando num ramo.
"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti".
Porém a Roseira fez que não com a cabeça.
"Minhas rosas são brancas", respondeu ela, "tão brancas quanto a espuma do mar, e mais brancas que a neve das montanhas. Porém procura minha irmã que cresce junto ao velho relógio de sol, e talvez ela possa te dar o que queres."
Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto ao velho relógio de sol.
"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti."
Porém a Roseira fez que não com a cabeça.
"Minhas rosas são amarelas", respondeu ela, "amarelas como os cabelos da sereia que está sentada num trono de âmbar, e mais amarelas que o narciso que floresce no prado quando o ceifeiro ainda não veio com sua foice. Porém procura minha irmã que cresce junto à janela do Estudante, e talvez ela possa te dar o que queres."
Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto à janela do Estudante.
"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti."
Porém a Roseira fez que não com a cabeça.
"Minhas rosas são vermelhas", respondeu ela, "vermelhas como os pés da pomba, e mais vermelhas que os grandes leques de coral que ficam a abanar na caverna no fundo do oceano. Porém o inverno congelou minhas veias, e o frio queimou meus brotos, e a tempestade quebrou meus galhos, e não darei nenhuma rosa este ano."
"Uma única rosa vermelha é tudo que quero", exclamou o Rouxinol, só uma rosa vermelha! Não há nenhuma maneira de consegui-la?"
"Existe uma maneira", respondeu a Roseira, "mas é tão terrível que não ouso te contar."
"Conta-me", disse o Rouxinol. "Não tenho medo."
"Se queres uma rosa vermelha", disse a Roseira, "tens de criá-la com tua música ao luar, e tingi-Ia com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim apertando o peito contra um espinho. A noite inteira tens de cantar para mim, até que o espinho perfure teu coração e teu sangue penetre em minhas veias, e se torne meu."
"A Morte é um preço alto a pagar por uma rosa vermelha", exclamou o Rouxinol, "e todos dão muito valor à Vida. É agradável, no bosque verdejante, ver o Sol em sua carruagem de ouro, e a Lua em sua carruagem de madrepérola. Doce é o perfume do pilriteiro, e as belas são as campânulas que se escondem no vale, e as urzes que florescem no morro. Porém o Amor é melhor que a Vida, e o que é o coração de um pássaro comparado com o coração de um homem?"
Assim, ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o jardim como uma sombra, e como uma sombra voou pelo arvoredo.
O jovem Estudante continuava deitado na grama, onde o Rouxinol o havia deixado, e as lágrimas ainda não haviam secado em seus belos olhos.
"Regozija-te", exclamou o Rouxinol, "regozija-te; terás tua rosa vermelha. Vou criá-la com minha música ao luar, e tingi-la com o sangue do meu coração. Tudo que te peço em troca é que ames de verdade, pois o Amor é mais sábio que a Filosofia, por mais sábia que ela seja, e mais poderoso que o Poder, por mais poderoso que ele seja. Suas asas são da cor do fogo, e tem a cor do fogo seu corpo. Seus lábios são doces como o mel, e seu hálito é como o incenso.
O Estudante levantou os olhos e ficou a escutá-lo, porém não compreendia o que lhe dizia o Rouxinol, pois só conhecia as coisas que estão escritas nos livros.
Mas o Carvalho compreendeu, e entristeceu-se, pois ele gostava muito do pequeno Rouxinol que havia construído um ninho em seus galhos.
"Canta uma última canção para mim", sussurrou ele; "vou sentir-me muito solitário depois que tu partires."
Assim, o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz era como água jorrando de uma jarra de prata.
Quando o Rouxinol terminou sua canção, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderno e um lápis.
"Forma ele tem", disse ele a si próprio, enquanto se afastava, caminhando pelo arvoredo, "isso não se pode negar; mas terá sentimentos? Temo que não. Na verdade, ele é como a maioria dos artistas; só estilo, nenhuma sinceridade. Não seria capaz de sacrificar-se pelos outros. Pensa só na música, e todos sabem que as artes são egoístas. Mesmo assim, devo admitir que há algumas notas belas em sua voz. Pena que nada signifiquem, nem façam nada de bom na prática." E foi para seu quarto, deitou-se em sua pequena enxerga e começou a pensar em seu amor; depois de algum tempo, adormeceu.
E quando a Lua brilhava nos céus, o Rouxinol voou até a Roseira e cravou o peito no espinho. A noite inteira ele cantou apertando o peito contra o espinho, e a Lua, fria e cristalina, inclinou-se para ouvir. A noite inteira ele cantou, e o espinho foi se cravando cada vez mais fundo em seu peito, e o sangue foi-lhe escapando das veias.
Cantou primeiro o nascimento do amor no coração de um rapaz e de uma moça. E no ramo mais alto da Roseira abriu-se uma rosa maravilhosa, pétala após pétala, à medida que canção seguia canção. Pálida era, de início, como a névoa que paira sobre o rio - pálida como os pés da manhã, e prateada como
as asas da alvorada. Como a sombra de uma rosa num espelho de prata, como a sombra de uma rosa numa poça d' água, tal era a rosa que floresceu no ramo mais alto da Roseira.
Porém a Roseira disse ao Rouxinol que se apertasse com mais força contra o espinho. Aperta-te mais, pequeno Rouxinol", exclamou a Roseira, "senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa."
Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e seu canto soou mais alto, pois ele cantava o nascimento da paixão na alma de um homem e uma mulher.
E um toque róseo delicado surgiu nas folhas da rosa, tal como o rubor nas faces do noivo quando ele beija os lábios da noiva. Porém o espinho ainda não havia penetrado até seu coração, e assim o coração da rosa permanecia branco, pois só o coração do sangue de um Rouxinol pode tingir de vermelho o coração de uma rosa.
E a Roseira insistia para que o Rouxinol se apertasse com mais força contra o espinho. "Aperta-te mais, pequeno Rouxinol", exclamou a Roseira, "senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa."
Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e uma feroz pontada de dor atravessou-lhe o corpo. Terrível, terrível era a dor, e mais e mais tremendo era seu canto, pois ele cantava o Amor que é levado à perfeição pela Morte, o Amor que não morre no túmulo.
E a rosa maravilhosa ficou rubra, como a rosa do céu ao alvorecer. Rubra era sua grinalda de pétalas, e rubro como um rubi era seu coração.
Porém a voz do Rouxinol ficava cada vez mais fraca, e suas pequenas asas começaram a se bater, e seus olhos se embaçaram. Mais e mais fraca era sua canção, e ele sentiu algo a lhe sufocar a garganta.
Então desprendeu-se dele uma derradeira explosão de música. A Lua alva a ouviu, e esqueceu-se do amanhecer, e permaneceu no céu. A rosa rubra a ouviu, e estremeceu de êxtase, e abriu suas pétalas para o ar frio da manhã. O Eco vou-a para sua caverna púrpura nas montanhas, e despertou de seus
sonhos os pastores adormecidos. A música flutuou por entre os juncos do rio, e eles leva ram sua mensagem até o mar.
"Olha, olha!", exclamou a Roseira, "a rosa está pronta." Porém o Rouxinol não deu resposta, pois jazia morto na grama alta, com o espinho cravado no coração.
E ao meio-dia o Estudante abriu a janela e olhou para fora.
"Ora, mas que sorte extraordinária!", exclamou. "Eis aqui uma rosa vermelha! Nunca vi uma rosa semelhante em toda minha vida. É tão bela que deve ter um nome comprido em latim." E, abaixando-se, colheu-a.
Em seguida, pôs o chapéu e correu até a casa do Professor com a rosa na mão.
A filha do Professor estava sentada à porta, enrolando seda azul num carretel, e seu cãozinho estava deitado a seus pés.
"Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha", disse o Estudante. "Eis aqui a rosa mais vermelha de todo o mundo. Tu a usarás junto ao teu coração, e quando dançarmos ela te dirá quanto te amo."
Porém a moça franziu a testa.
"Creio que não vai combinar com meu vestido", respondeu ela; "e, além disso, o sobrinho do Tesoureiro enviou-me jóias de verdade, e todo mundo sabe que as jóias custam muito mais do que as flores."
"Ora, mas és mesmo uma ingrata", disse o Estudante, zangado, e jogou a rosa na rua; a flor caiu na sarjeta, e uma carroça passou por cima dela.
"Ingrata!", exclamou a moça. "Tu é que és muito mal-educado; e quem és tu? Apenas um Estudante. Ora, creio que não tens sequer fivelas de prata em teus sapatos, como tem o sobrinho do Tesoureiro." E, levantando-se, entrou em casa.
"Que coisa mais tola é o Amor!", disse o Estudante enquanto se afastava. "É bem menos útil que a Lógica, pois nada prova, e fica o tempo todo a nos dizer coisas que não vão acontecer, e fazendo-nos acreditar em coisas que não são verdade. No final das contas, é algo muito pouco prático, e como em nossos tempos ser prático é tudo, vou retomar a Filosofia e estudar Metafísica."
Assim, voltou para seu quarto, pegou um livro grande e poeirento, e começou a ler.
Do seu ninho no alto da azinheira, o Rouxinol o ouviu, e olhou por entre as folhas, e ficou a pensar.
"Não há nenhuma rosa vermelha em todo o meu jardim!", exclamou ele, e seus lindos olhos encheram-se de lágrimas. "Ah, nossa felicidade depende de coisas tão pequenas! Já li tudo que escreveram os sábios, conheço todos os segredos da filosofia, e no entanto por falta de uma rosa vermelha minha vida infeliz."
"Finalmente, eis um que ama de verdade", disse o Rouxinol. "Noite após noite eu o tenho cantado, muito embora não o conhecesse: noite após noite tenho contado sua história para as estrelas, e eis que agora o vejo. Seus cabelos são escuros como a flor do jacinto, e seus lábios são vermelhos como a rosa de seu desejo; porém a paixão transformou-lhe o rosto em marfim pálido, e a cravou-lhe na fronte sua marca."
"Amanhã haverá um baile no palácio do príncipe", murmurou o jovem Estudante, "e minha amada estará entre os convidados. Se eu lhe trouxer uma rosa vermelha, ela há de dançar comigo até o dia raiar. Se lhe trouxer uma rosa vermelha, eu a terei nos meus braços, e ela deitará a cabeça no meu ombro, e sua mão ficará apertada na minha. Porém não há nenhuma rosa vermelha no meu jardim, e por isso ficarei sozinho, e ela passará por mim sem me olhar. Não me dará nenhuma atenção, e meu coração será destroçado."
"Sim, ele ama de verdade", disse o Rouxinol. "Aquilo que eu canto, ele sofre; o que para mim é júbilo, para ele é sofrimento. Sem dúvida, o Amor é uma coisa maravilhosa. É mais precioso do que as esmeraldas, mais caro do que as opalas finas. Nem pérolas nem romãs podem comprá-lo, nem é coisa que se encontre à venda no mercado. Não é possível comprá-lo de comerciante, nem pesá-lo numa balança em troca de ouro".
"Os músicos no balcão", disse o jovem Estudante, "tocarão seus instrumentos de corda, e meu amor dançará ao som da harpa e do violino. Dançará com pés tão leves que nem sequer hão de tocar no chão, e os cortesãos, com seus trajes coloridos, vão cercá-la. Porém comigo ela não dançará, porque não tenho nenhuma rosa vermelha para lhe dar." E jogou-se na grama, cobriu o rosto com as mãos e chorou.
"Por que chora ele?", indagou um pequeno Lagarto Verde, ao passar correndo com a cauda levantada.
"Sim, por quê?", perguntou uma Borboleta, que esvoaçava em torno de um raio de sol.
"Sim, por quê?", sussurrou uma Margarida, virando-se para sua vizinha, com uma voz suave.
"Ele chora por uma rosa vermelha", disse o Rouxinol.
"Uma rosa vermelha?", exclamaram todos. "Mas que ridículo!" E o pequeno Lagarto, que era um tanto cínico, riu à grande.
Porém o Rouxinol compreendia o segredo da dor do Estudante, e calou-se no alto da azinheira, pensando no mistério do Amor.
De repente ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o arvoredo como uma sombra, e como uma sombra cruzou o jardim.
No centro do gramado havia uma linda Roseira, e quando a viu o Rouxinol foi até ela, pousando num ramo.
"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti".
Porém a Roseira fez que não com a cabeça.
"Minhas rosas são brancas", respondeu ela, "tão brancas quanto a espuma do mar, e mais brancas que a neve das montanhas. Porém procura minha irmã que cresce junto ao velho relógio de sol, e talvez ela possa te dar o que queres."
Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto ao velho relógio de sol.
"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti."
Porém a Roseira fez que não com a cabeça.
"Minhas rosas são amarelas", respondeu ela, "amarelas como os cabelos da sereia que está sentada num trono de âmbar, e mais amarelas que o narciso que floresce no prado quando o ceifeiro ainda não veio com sua foice. Porém procura minha irmã que cresce junto à janela do Estudante, e talvez ela possa te dar o que queres."
Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto à janela do Estudante.
"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti."
Porém a Roseira fez que não com a cabeça.
"Minhas rosas são vermelhas", respondeu ela, "vermelhas como os pés da pomba, e mais vermelhas que os grandes leques de coral que ficam a abanar na caverna no fundo do oceano. Porém o inverno congelou minhas veias, e o frio queimou meus brotos, e a tempestade quebrou meus galhos, e não darei nenhuma rosa este ano."
"Uma única rosa vermelha é tudo que quero", exclamou o Rouxinol, só uma rosa vermelha! Não há nenhuma maneira de consegui-la?"
"Existe uma maneira", respondeu a Roseira, "mas é tão terrível que não ouso te contar."
"Conta-me", disse o Rouxinol. "Não tenho medo."
"Se queres uma rosa vermelha", disse a Roseira, "tens de criá-la com tua música ao luar, e tingi-Ia com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim apertando o peito contra um espinho. A noite inteira tens de cantar para mim, até que o espinho perfure teu coração e teu sangue penetre em minhas veias, e se torne meu."
"A Morte é um preço alto a pagar por uma rosa vermelha", exclamou o Rouxinol, "e todos dão muito valor à Vida. É agradável, no bosque verdejante, ver o Sol em sua carruagem de ouro, e a Lua em sua carruagem de madrepérola. Doce é o perfume do pilriteiro, e as belas são as campânulas que se escondem no vale, e as urzes que florescem no morro. Porém o Amor é melhor que a Vida, e o que é o coração de um pássaro comparado com o coração de um homem?"
Assim, ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o jardim como uma sombra, e como uma sombra voou pelo arvoredo.
O jovem Estudante continuava deitado na grama, onde o Rouxinol o havia deixado, e as lágrimas ainda não haviam secado em seus belos olhos.
"Regozija-te", exclamou o Rouxinol, "regozija-te; terás tua rosa vermelha. Vou criá-la com minha música ao luar, e tingi-la com o sangue do meu coração. Tudo que te peço em troca é que ames de verdade, pois o Amor é mais sábio que a Filosofia, por mais sábia que ela seja, e mais poderoso que o Poder, por mais poderoso que ele seja. Suas asas são da cor do fogo, e tem a cor do fogo seu corpo. Seus lábios são doces como o mel, e seu hálito é como o incenso.
O Estudante levantou os olhos e ficou a escutá-lo, porém não compreendia o que lhe dizia o Rouxinol, pois só conhecia as coisas que estão escritas nos livros.
Mas o Carvalho compreendeu, e entristeceu-se, pois ele gostava muito do pequeno Rouxinol que havia construído um ninho em seus galhos.
"Canta uma última canção para mim", sussurrou ele; "vou sentir-me muito solitário depois que tu partires."
Assim, o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz era como água jorrando de uma jarra de prata.
Quando o Rouxinol terminou sua canção, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderno e um lápis.
"Forma ele tem", disse ele a si próprio, enquanto se afastava, caminhando pelo arvoredo, "isso não se pode negar; mas terá sentimentos? Temo que não. Na verdade, ele é como a maioria dos artistas; só estilo, nenhuma sinceridade. Não seria capaz de sacrificar-se pelos outros. Pensa só na música, e todos sabem que as artes são egoístas. Mesmo assim, devo admitir que há algumas notas belas em sua voz. Pena que nada signifiquem, nem façam nada de bom na prática." E foi para seu quarto, deitou-se em sua pequena enxerga e começou a pensar em seu amor; depois de algum tempo, adormeceu.
E quando a Lua brilhava nos céus, o Rouxinol voou até a Roseira e cravou o peito no espinho. A noite inteira ele cantou apertando o peito contra o espinho, e a Lua, fria e cristalina, inclinou-se para ouvir. A noite inteira ele cantou, e o espinho foi se cravando cada vez mais fundo em seu peito, e o sangue foi-lhe escapando das veias.
Cantou primeiro o nascimento do amor no coração de um rapaz e de uma moça. E no ramo mais alto da Roseira abriu-se uma rosa maravilhosa, pétala após pétala, à medida que canção seguia canção. Pálida era, de início, como a névoa que paira sobre o rio - pálida como os pés da manhã, e prateada como
as asas da alvorada. Como a sombra de uma rosa num espelho de prata, como a sombra de uma rosa numa poça d' água, tal era a rosa que floresceu no ramo mais alto da Roseira.
Porém a Roseira disse ao Rouxinol que se apertasse com mais força contra o espinho. Aperta-te mais, pequeno Rouxinol", exclamou a Roseira, "senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa."
Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e seu canto soou mais alto, pois ele cantava o nascimento da paixão na alma de um homem e uma mulher.
E um toque róseo delicado surgiu nas folhas da rosa, tal como o rubor nas faces do noivo quando ele beija os lábios da noiva. Porém o espinho ainda não havia penetrado até seu coração, e assim o coração da rosa permanecia branco, pois só o coração do sangue de um Rouxinol pode tingir de vermelho o coração de uma rosa.
E a Roseira insistia para que o Rouxinol se apertasse com mais força contra o espinho. "Aperta-te mais, pequeno Rouxinol", exclamou a Roseira, "senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa."
Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e uma feroz pontada de dor atravessou-lhe o corpo. Terrível, terrível era a dor, e mais e mais tremendo era seu canto, pois ele cantava o Amor que é levado à perfeição pela Morte, o Amor que não morre no túmulo.
E a rosa maravilhosa ficou rubra, como a rosa do céu ao alvorecer. Rubra era sua grinalda de pétalas, e rubro como um rubi era seu coração.
Porém a voz do Rouxinol ficava cada vez mais fraca, e suas pequenas asas começaram a se bater, e seus olhos se embaçaram. Mais e mais fraca era sua canção, e ele sentiu algo a lhe sufocar a garganta.
Então desprendeu-se dele uma derradeira explosão de música. A Lua alva a ouviu, e esqueceu-se do amanhecer, e permaneceu no céu. A rosa rubra a ouviu, e estremeceu de êxtase, e abriu suas pétalas para o ar frio da manhã. O Eco vou-a para sua caverna púrpura nas montanhas, e despertou de seus
sonhos os pastores adormecidos. A música flutuou por entre os juncos do rio, e eles leva ram sua mensagem até o mar.
"Olha, olha!", exclamou a Roseira, "a rosa está pronta." Porém o Rouxinol não deu resposta, pois jazia morto na grama alta, com o espinho cravado no coração.
E ao meio-dia o Estudante abriu a janela e olhou para fora.
"Ora, mas que sorte extraordinária!", exclamou. "Eis aqui uma rosa vermelha! Nunca vi uma rosa semelhante em toda minha vida. É tão bela que deve ter um nome comprido em latim." E, abaixando-se, colheu-a.
Em seguida, pôs o chapéu e correu até a casa do Professor com a rosa na mão.
A filha do Professor estava sentada à porta, enrolando seda azul num carretel, e seu cãozinho estava deitado a seus pés.
"Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha", disse o Estudante. "Eis aqui a rosa mais vermelha de todo o mundo. Tu a usarás junto ao teu coração, e quando dançarmos ela te dirá quanto te amo."
Porém a moça franziu a testa.
"Creio que não vai combinar com meu vestido", respondeu ela; "e, além disso, o sobrinho do Tesoureiro enviou-me jóias de verdade, e todo mundo sabe que as jóias custam muito mais do que as flores."
"Ora, mas és mesmo uma ingrata", disse o Estudante, zangado, e jogou a rosa na rua; a flor caiu na sarjeta, e uma carroça passou por cima dela.
"Ingrata!", exclamou a moça. "Tu é que és muito mal-educado; e quem és tu? Apenas um Estudante. Ora, creio que não tens sequer fivelas de prata em teus sapatos, como tem o sobrinho do Tesoureiro." E, levantando-se, entrou em casa.
"Que coisa mais tola é o Amor!", disse o Estudante enquanto se afastava. "É bem menos útil que a Lógica, pois nada prova, e fica o tempo todo a nos dizer coisas que não vão acontecer, e fazendo-nos acreditar em coisas que não são verdade. No final das contas, é algo muito pouco prático, e como em nossos tempos ser prático é tudo, vou retomar a Filosofia e estudar Metafísica."
Assim, voltou para seu quarto, pegou um livro grande e poeirento, e começou a ler.
e de repente, eu sinto me o rouxinol com a diferença de nao chorar com a minha irmã mas sim sozinha.
2018
fiquei num emprego que odiava, esperei pelo emprego que me faz feliz, consegui o emprego que me faz feliz, conheci pessoas novas, o meu chefe decidiu mostrar me nudes sem querer e perdeu o meu respeito embora fosse dos tipos mais bonitos que já vi na minha vida, fui a sevilha em excursão sem dinheiro e perdi-me por aquela cidade, fui a silves e apaixonei-me, tive o melhor carro de sempre, conheci aquele que seria o meu melhor amigo, fiquei a olhar para o meu melhor amigo e durante dois segundos descobri-lhe qualidades físicas que me humedeceram, aceitei as qualidades físicas do meu melhor amigo e continuou sendo unicamente amigo, apaixonei-me, não lidei bem com isso, fiz milhares de euros para a minha companhia, ganhei o prémio de melhor colaboradora, o meu melhor amigo tirou fotos da entrega de prémios, chorei no ombro do meu melhor amigo por causa da pessoa por quem me apaixonei, recebi outro prémio de melhor colaboradora, conheci hospedes fantásticos, fui guia, fiz imenso dinheiro, não fui multada mesmo pisando o risco, ri durante uma hora na estrada ao telefone, chorei ao desabafar, recebi reclamações, lidei com reclamações, devolvi dinheiro a um domingo, comi em hotéis sem pertencer a eles, bebi imenso vinho, mantive a minha irmã à distancia de um telefonema, não atrolepei ninguém, seja animal seja humano, fiz hospedes muito felizes, recebi deles mensagens que guardo no telemóvel e no coração, sofri por estar apaixonada, convenci me que tinha passado, lembrei-me que nao tinha passado, fiz salada de batatas com bacon e cornichons, nao fui á praia em agosto, vi golfinhos ao por do sol e senti-me feliz, enfrentei pessoas mal criadas, esgotei musicas de tanto as ouvir, descobri que as empadas da estação de combustível galp na via do infante perto de loulé são as melhores, vi o sol nascer quando ia para o aeroporto, ajudei pessoas a pouparem dinheiro, incentivei outras a gastarem-no, arranjei inimigos mas consegui amigos que me protegessem, bebi imenso vinho, pedi que entregassem o prémio de fim de epoca ao meu melhor amigo em vez de a mim, filmei a entrega, ele nunca soube de nada, a namorada ficou orgulhosa, fumei imenso tabaco, dormi na cama de adolescente na casa dos meus pais e olhei para o castelo com saudade de quando era nova, aprendi a abraçar sem reservas, provei os melhores lábios do mundo, fui até a serra de Arrábida com a minha irmã e ouvi-a falar enquanto tinha a certeza que laços de sangue são fortes, deixei algumas pessoas, conquistei outras e estou a tentar cativar umas quantas.
this is not a chrismas tail
Zé Manuel era o mais novo de 3 irmãos, filhos de uns amigos dos meus avós. nunca liguei ao zé manuel porque tinha os olhos para o irmão, da marinha. long story short; farda.
Zé Manel tinha um emprego sólido e - imaginem só - trabalhava num banco. estamos a falar da década de oitenta, trabalhar num banco era tão seguro quanto tomar a pílula. Lena casou com zé manel. não precisava da pílula porque não queria filhos e retirou todo o seu leito biológico. não sei pormenores. Lena era a mulher do zé Manel do banco e fazia questão de se aprontar com tal. nunca apareceu despenteada, desmaquilhada ou mal vestida. lembro perfeitamente das peles de raposa com que se manifestava lá em casa, o batom vermelho e a voz histericamente aguda. vinham todos os domingos a casa dos meus pais, ele para falar, ela para mostrar sinais exteriores de riqueza enquanto minha mãe passava a ferro ou fazia o jantar.
Zé manuel era um bacano, leve e de sorriso pronto. avisou lena muitas vezes de que, por causa da tensão alta, não deveria abusar do sal mas ela, que sabia mais do que todos nós juntos, continuava a exagerar. Os médicos sabem lá. eu é que sei.
Lena teve um AVC. ou um enfarte. um uma coisa assim que a deixou paralitica numa cadeira de rodas sem sequer poder exprimir-se. as visitas na casa dos meus pais tornaram-se penosas com ela a grunhir "papapapapapap" e "pepepepepepepepe" sempre impecavelmente vestida, maquilhada e penteada. parecia daquelas estátuas que o mundo abandonou, com a mesma beleza mas agora rodeada de musgo, fendas e falhas. Zé manel deixou de sorrir, aos poucos, viemos a saber que era ele quem a vestia, penteava e maquilhava, todos os dias, delicadamente e e ela, claro, sempre a resmungar na língua que agora pertencia aos pês, nunca estava satisfeita. senti minha mãe, enfermeira de profissão, a tremer quando tentava entender a lena a falar e a nao perceber rigorosamente nada sentindo-a cada vez mais frustrada e o zé manel a chegar, a traduzir, a explicar. Em vez de um olhar de agradecimento, lena bufava, nem sequer a tragédia lhe baixou a crista.
Um dia, zé manel teve a lata de se atrasar. vinha de Lisboa e - não sei - transito ou algo assim, falhou por dez minutos. quinze no máximo. Lena em casa agitada. empregada nervosa, mete um pouco de pao de ló na boca crua da senhora que lhe exigia comida e, com a ganancia, se engasga. e morre. ali.
Bombeiros ambulância hospital morgue enterro. Zé manel triste e lena enterrada no seu casaco de peles. na casa deles, o constante vocabulário desprovido de sentido foi substituído pelo silencio. a cadeira de rodas deixou de fazer parte do porta bagagens e as visitas de domingo foram substituídas por passeios solitários até o cemitério.
zé manel tem uma namorada, agora. não usa batom nem casacos de pele. sorri e pergunta a minha mãe se precisa de ajuda. nao gosta de pão de ló.
Zé Manel tinha um emprego sólido e - imaginem só - trabalhava num banco. estamos a falar da década de oitenta, trabalhar num banco era tão seguro quanto tomar a pílula. Lena casou com zé manel. não precisava da pílula porque não queria filhos e retirou todo o seu leito biológico. não sei pormenores. Lena era a mulher do zé Manel do banco e fazia questão de se aprontar com tal. nunca apareceu despenteada, desmaquilhada ou mal vestida. lembro perfeitamente das peles de raposa com que se manifestava lá em casa, o batom vermelho e a voz histericamente aguda. vinham todos os domingos a casa dos meus pais, ele para falar, ela para mostrar sinais exteriores de riqueza enquanto minha mãe passava a ferro ou fazia o jantar.
Zé manuel era um bacano, leve e de sorriso pronto. avisou lena muitas vezes de que, por causa da tensão alta, não deveria abusar do sal mas ela, que sabia mais do que todos nós juntos, continuava a exagerar. Os médicos sabem lá. eu é que sei.
Lena teve um AVC. ou um enfarte. um uma coisa assim que a deixou paralitica numa cadeira de rodas sem sequer poder exprimir-se. as visitas na casa dos meus pais tornaram-se penosas com ela a grunhir "papapapapapap" e "pepepepepepepepe" sempre impecavelmente vestida, maquilhada e penteada. parecia daquelas estátuas que o mundo abandonou, com a mesma beleza mas agora rodeada de musgo, fendas e falhas. Zé manel deixou de sorrir, aos poucos, viemos a saber que era ele quem a vestia, penteava e maquilhava, todos os dias, delicadamente e e ela, claro, sempre a resmungar na língua que agora pertencia aos pês, nunca estava satisfeita. senti minha mãe, enfermeira de profissão, a tremer quando tentava entender a lena a falar e a nao perceber rigorosamente nada sentindo-a cada vez mais frustrada e o zé manel a chegar, a traduzir, a explicar. Em vez de um olhar de agradecimento, lena bufava, nem sequer a tragédia lhe baixou a crista.
Um dia, zé manel teve a lata de se atrasar. vinha de Lisboa e - não sei - transito ou algo assim, falhou por dez minutos. quinze no máximo. Lena em casa agitada. empregada nervosa, mete um pouco de pao de ló na boca crua da senhora que lhe exigia comida e, com a ganancia, se engasga. e morre. ali.
Bombeiros ambulância hospital morgue enterro. Zé manel triste e lena enterrada no seu casaco de peles. na casa deles, o constante vocabulário desprovido de sentido foi substituído pelo silencio. a cadeira de rodas deixou de fazer parte do porta bagagens e as visitas de domingo foram substituídas por passeios solitários até o cemitério.
zé manel tem uma namorada, agora. não usa batom nem casacos de pele. sorri e pergunta a minha mãe se precisa de ajuda. nao gosta de pão de ló.
la joie de vivre - umbiguismo
1 parte
Quando cheguei a Portugal, os meus pais acharam por bem meterem-me num psicólogo em vez de falarem comigo. parece que terem anunciado com uma semana de antecedência que iria viver num país do qual não entendia nem a língua nem a cultura não era o suficiente para estar triste ou - como ouso - não querer socializar.
Lembro-me que a psicóloga era a mulher de um colega do meu pai, era mais barato assim e lembro-me perfeitamente de estar sentada na cadeira como se de medico de clínica geral fosse, ambiente asséptico, a falar com ela. do que mais me lembro foi da senhora me explicar que nunca somos a mesma pessoa, somos diferentes consoante o ambiente onde estamos inseridos. nem sei a que propósito disse isso mas disse e eu retive.
2 parte
Houve uma altura em que ia frequentemente ao site da empresa onde trabalho para ler as criticas, especialmente sobre mim. a dada altura deixei de ir porque ficava mais magoada do que contente. é certo que o balanço era positivo mas ficava cego quando lia pessoas com nicks tao absurdos quanto "la fleur du printemps" dizer que eu era arrogante, pouco simpática ou mesmo agressiva, essas apagavam as outras mais simpáticas e eu ficava destroçada. deixei de ir. falei com uns colegas que fizeram o mesmo. descobri que trip advisor e sites de opinião eram um perigo para a auto estima e nunca mais lá fui. até ontem.
2.5 parte
Ontem fui ao site e li uma critica de uma hospede que dizia cobras e lagartos sobre o hotel que tanto odeio e, no fim, um beijinho para mim, obrigada pelos conselhos e a tua alegria de viver. fiz print, mandei a quem gosto, orgulhosa mas fiquei confusa. E fiquei porque não entendi o contraste entre esta e outras que, depois,, li. aquilo era a loucura. uns a adorarem-me e outros a acharem me uma perda de tempo. depois constatei que não sabia sequer quem me elogiava a "alegria de viver", lembrei me dos hospedes que me procuram no fb e continuam a querer falar mesmo depois de meses e eu sem pachorra. os outros que detestei e que me detestaram e que nunca escreveram nada e outros quantos que também não me lembro mas que despejaram a raiva o teclado sobre o quanto sou péssima. a tudo isso vamos acrescentar o meu chefe, Tao lindo e tão burro, que pediu ao meu amigo para nao se deixar contagiar pelo meu negativismo mas me disse que eu era fantástica, a minha chefe maior que me vê como um leão de garras afiadas, sempre a exigir demasiado de mim própria e a aconselhar-me a ser menos exigente, a minha irmã e mãe que idolatram a força que nem sei que tenho, as minhas amigas de adolescência que acham piada ao rosnar constante mas inofensivo, aos meus colegas que me acham "estranha" e aos vizinhos que me avisam "oh menina deixou a carteira dentro do carro, sua distraída! tao querida"
continuação da 1 parte e fim que tenho canja para comer.
A psicóloga, que também so vi uma vez porque provavelmente aquilo custava muito dinheiro e os meus pais receavam medicação acima das possibilidades deles, estava lamentavelmente errada. nao somos pessoas diferentes, os outros é que nos veem como lhes convém ou como lhes calha. nao somos seres básicos que actuam sem mais nem menos mas sim plasticina que age e reage a quem reage e reage connosco. somos o que por vezes falta aos outros, somos o que mais gostam ou detestam neles próprios. no fundo, sorte de quem nos vê como somos, a maioria vê o que pode obter, usar ou abusar. fico feliz de quem me tenha considerado útil e feliz, triste por quem me ache uma lastima mas fico contente por saber que "é dos teus olhos mais do que da minha alma"
Quando cheguei a Portugal, os meus pais acharam por bem meterem-me num psicólogo em vez de falarem comigo. parece que terem anunciado com uma semana de antecedência que iria viver num país do qual não entendia nem a língua nem a cultura não era o suficiente para estar triste ou - como ouso - não querer socializar.
Lembro-me que a psicóloga era a mulher de um colega do meu pai, era mais barato assim e lembro-me perfeitamente de estar sentada na cadeira como se de medico de clínica geral fosse, ambiente asséptico, a falar com ela. do que mais me lembro foi da senhora me explicar que nunca somos a mesma pessoa, somos diferentes consoante o ambiente onde estamos inseridos. nem sei a que propósito disse isso mas disse e eu retive.
2 parte
Houve uma altura em que ia frequentemente ao site da empresa onde trabalho para ler as criticas, especialmente sobre mim. a dada altura deixei de ir porque ficava mais magoada do que contente. é certo que o balanço era positivo mas ficava cego quando lia pessoas com nicks tao absurdos quanto "la fleur du printemps" dizer que eu era arrogante, pouco simpática ou mesmo agressiva, essas apagavam as outras mais simpáticas e eu ficava destroçada. deixei de ir. falei com uns colegas que fizeram o mesmo. descobri que trip advisor e sites de opinião eram um perigo para a auto estima e nunca mais lá fui. até ontem.
2.5 parte
Ontem fui ao site e li uma critica de uma hospede que dizia cobras e lagartos sobre o hotel que tanto odeio e, no fim, um beijinho para mim, obrigada pelos conselhos e a tua alegria de viver. fiz print, mandei a quem gosto, orgulhosa mas fiquei confusa. E fiquei porque não entendi o contraste entre esta e outras que, depois,, li. aquilo era a loucura. uns a adorarem-me e outros a acharem me uma perda de tempo. depois constatei que não sabia sequer quem me elogiava a "alegria de viver", lembrei me dos hospedes que me procuram no fb e continuam a querer falar mesmo depois de meses e eu sem pachorra. os outros que detestei e que me detestaram e que nunca escreveram nada e outros quantos que também não me lembro mas que despejaram a raiva o teclado sobre o quanto sou péssima. a tudo isso vamos acrescentar o meu chefe, Tao lindo e tão burro, que pediu ao meu amigo para nao se deixar contagiar pelo meu negativismo mas me disse que eu era fantástica, a minha chefe maior que me vê como um leão de garras afiadas, sempre a exigir demasiado de mim própria e a aconselhar-me a ser menos exigente, a minha irmã e mãe que idolatram a força que nem sei que tenho, as minhas amigas de adolescência que acham piada ao rosnar constante mas inofensivo, aos meus colegas que me acham "estranha" e aos vizinhos que me avisam "oh menina deixou a carteira dentro do carro, sua distraída! tao querida"
continuação da 1 parte e fim que tenho canja para comer.
A psicóloga, que também so vi uma vez porque provavelmente aquilo custava muito dinheiro e os meus pais receavam medicação acima das possibilidades deles, estava lamentavelmente errada. nao somos pessoas diferentes, os outros é que nos veem como lhes convém ou como lhes calha. nao somos seres básicos que actuam sem mais nem menos mas sim plasticina que age e reage a quem reage e reage connosco. somos o que por vezes falta aos outros, somos o que mais gostam ou detestam neles próprios. no fundo, sorte de quem nos vê como somos, a maioria vê o que pode obter, usar ou abusar. fico feliz de quem me tenha considerado útil e feliz, triste por quem me ache uma lastima mas fico contente por saber que "é dos teus olhos mais do que da minha alma"
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