sem filtro nem lógica

Estava a dizer, ao telefone, a um amigo para quem já representei o mundo que isso de sair da zona de conforto e socializar e desafiar-se é desgastante. Divertir-se a certa altura é uma seca. eu sei que pareço uma puta fina mas arrastar o corpo para passeios e jantares e copos e o caraças quando só se quer ficar em casa a lamentar-se da vida é horrível. obrigar te a viver é uma seca e, como diria o pedro paixao, viver todos os dias cansa, e mata.

No domingo, uma senhora, ao despedir se de mim (amorosa ela) disse me que eu era uma pessoa muito forte e enchia a sala. apeteceu me ao mesmo tempo rir e chamar-lhe de burra. andamos todos muito felizes sim senhora, o insta está cheio de fotos de pessoas felizes e realizadas mas basta um almoço de choco frito com 3 imperiais para saberes que é tudo uma merda, as pessoas andam infelizes e a única coisa que conseguem fazer, ao fim do dia, é sobreviver e no dia seguinte levantar se e nunca perder a doçura. não amargar.

supostamente não foi para isso que quisemos crescer, era suposto sermos bem sucedidos num emprego onde reconheceriam o nosso valor e afinal está o que lambe os pés ao chefe a ter a promoção, era suposto ficarmos com quem gostássemos e vai se a ver e o tipo prefere alguém que escreve "chupa pilas" e "uma foda bem dada" quando a nossa preocupação era passar todo o sentimento numa "queca bem dada" (estou a tentar ser como ela), era suposto a mente acompanhar o corpo mas depois da queda no barco, culpa do gin, nao consegues fazer metade das acrobacias (essa parte é só mesmo para justificar a nao ida ao ginásio) estava a dizer a um amigo para quem já representei o mundo que isso de criar memorias a ver se outras desaparecem é uma seca e ele riu-se como quem já passou por isso e de certeza que ja passou, afinal todos nós passamos e diz que sim mas compensa entao a gente lá vai, mais uma vez, criar memórias a ver se enterra outras e acredita que vai tudo correr bem, só é pena nao se dar mais valor a saúde mental do que à física porque há muita gente a precisar mais de abraços e de falar do que sumos detox e alongamentos. este mundo, por vezes, está fodido e não só temos de sobreviver como não amargar. tenho um limoeiro que faz isso, queria ser o limoeiro.

Lukas Graham - 7 Years (OK BOOMER)



Não quero com isto escrever que são todos assim, obviamente que, em qualquer geração, a maior parte dos miúdos até é coerente mas depois há outros que, pelo amor de deus... mas tenho reparado que esta geração está a ter mais dificuldade em ajustar o que diz com o que faz. Acho que o caso mais gritante é o do ambiente, reparo que saltam em cima de qualquer pessoa munidos de iPhone e comendo no mac Donalds com 3 palhinhas no tabuleiro porque tiveram preguiça de retirar só uma e metem um tweet a dizer que a greta é que é. São os que se preocupam com a camada de ozono mas querem  um ano Gap a viajar pelo mundo de avião e, infelizmente, são os que acusam as grandes industrias logo antes de comprar ténis de marca (que tem aquela pele verdadeira logo a roçar o tornozelo porque são confortáveis e custam acima de 100 euros). 
Depois há o caso que mais me rasga o coração. Aquele em que toda a gente deve ter prioridades iguais MAS se tiveres acima de 30 ou 40 anos vai mas é pra casa porque menopausa. Meus lindos, a menopausa é pelos 55 anos se tudo correr bem e não inadapta ninguém, um dia chegam lá e verão por vocês mesmo. De qualquer maneira, aos 50, há a policia da juventude que nos tranca em casa para não infestarmos ninguém, não se preocupem. 
A idade, para estes putos, é a maior arma que têm para atacar. não me chegam os dedos das Mãos já envelhecidas para enumerar as vezes que, na redes social, e sem saberem a minha idade, me acusaram de ser demasiado velha para; ter opiniões, estar no twitter ou sequer existir. Fosse eu gender neutral ou tivesse uma psicose grave e seria mais bem acolhida do que ter a lata de passar a fronteira dos 30/40. Acham a vida muito difícil, acredito que seja mas, nos meus tempos, íamos de carroça até a escola que eram a duas horas de caminho, hoje queixam-se que o comboio não tem net. Tínhamos livros que devíamos estudar e decorar, voltando atrás quando já estávamos na 4028 pagina e procurar aquela frase para perceber melhor, nada de search ou google. Desemprego? Também tinhamos. Mal de amores? Também mas sofríamos em segredo porque o telefone era pegado a parede da sala e os nossos pais eram, lá está, uns cotas com menopausa e não entenderiam o que aconteceu. Escrevíamos no diário porque não havia redes sociais onde pudéssemos gritar a nossa dor e ter milhares de desconhecidos a dizer mal do nosso ex.sem o conhecer. Gritam que a mulher é mais que uma cona ou aparelho reprodutor mas mandam os cotas irem tratar os filhos ou da casa. Exclamam que devíamos aprender com os erros do passado mas não dão ouvidos a quem o viveu. Man! For real? 

Tenho a pequena sensação de que poderíamos ajudar-nos mutuamente, tal e qual avós e netos na noite de natal, vocês ensinam-nos a trabalhar com o iphone e nós ajudamos a explicar que na nossa altura, não sabíamos que fazer pinturas rupestres poderia fazer mal ao ambiente. vocês explicam-nos os vossos medos e nós reconfortamos-vos de que vai tudo correr bem. 

Long story short, até pq me resta pouco tempo de vida, usar o factor idade para qualquer argumento é muito perigoso, primeiro porque morremos mais depressa e podemos vos assombrar depois da nossa morte e depois porque, não sei, talvez tenhamos um pouco mais de experiência e possamos, tal como com vocês, aprender coisas novas como, sei lá, misturar inglês e português na mesma frase ou - ta-da, reconfortar-vos que tudo passa, até essa aversão por crescer

soap

uma coisa que sempre me fez impressao no meu pai foi a nuvem negra que tinha em cima dele como se todos lhe devessem e ninguém lhe pagava. sofria imenso de insónias e tinha quilos de teorias de conspiração. engraçado ou nao, foi onde mais confiava que lhe falhavam. sempre me fez impressão pessoas assim, com o peso do mundo em cima das costas, dramáticos a acharem que o mundo conspira contra eles e são demasiado bons para ele. também confesso que tenho alturas em que sinto isso, alturas essas em que qualquer desculpa me serve para justificar algum erro ou falta de sorte. mas depois? depois descubro que somos todos humanos, todos diferentes e, por vezes, não há maldade, há só burrice, só incapacidade ou, até, estivemos "lost in translation". essa é outra desculpa que uso imenso, lembro-me de um hospede que me ligou da Bélgica, tinha acabado de aterrar e o diretor do hotel onde tinha ficado aqui em albufeira ligou lhe a perguntar se ficou com o dispensador de sabonete. depois de perguntar ao diretor onde é que ele tinha a cabeça e o mesmo me responder que, efetivamente, o dispensador de sabonete tinha desaparecido e ele era o único culpado, justifiquei me perante o desgraçado que não foi bem assim, o diretor não perguntou se tinha roubado, era outra palavra qualquer mas sabe como é, a coisa perde se na tradução. O hospede fingiu que acreditou, eu senti que tinha safado o diretor de uma queixa formal e o diretor encomendou outro dispensador de sabonete. é assim a vida, não é maldade, é burrice e geralmente quando descobrimos que não nos quiseram mal, simplesmente não nos quiseram ou não souberam querer-nos (seja a que plano for) a coisa engole se mais facilmente, afinal nao fala a nossa linguagem, ah ok, fingimos que acreditamos e está bem, boa sorte com a compra de um dispensador de sabonete.

pink floyd - the grass is greener

A minha psicanalista sugeriu que saísse da zona de conforto e fizesse coisas das quais tivesse medo. também achou que, numa segunda fase, deveria dizer às pessoas que me magoaram o quanto o fizeram para poder descansar. o grande problema é que tenho memória seletiva e só me lembro de merdas depois de me lembrarem. acho que é para isso que os meus pais me deram uma irmã; filha, a gente semos uma merda mas tá aqui uma loura de olhos azuis, não é assim muito simpática; não gosta de crianças, não faz fretes nem sequer se preocupa com muitas coisas que nao sejam com ela mas tem uma memória do caraças e pode ajudar-te a lembrares merdas que te aconteceram e tem sido assim, "não sei se te lembras, mana, mas em 1834, ele disse para ires te foder". aguardo que ela volte dos estados unidos e me faça uma lista para poder seguir, etapa por etapa o que a vanessa maria me sugeriu. até lá e nisso de sair da zona de conforto, fui ao ikea ao domingo à tarde, li um pouco de raul minh'alma (?), comprei uma base um tom acima do meu e fiz um jantar vegan. quis inscrever me no ginásio mas graças a deus o horário não é compatível com o meu curso de alemão que, ta-da, também foi uma opção feita fora da caixa.
há um sentimento que tem a ver com olfato. não sei explicar muito melhor que isso mas é quando a chuva acaba e a relva cheira bem. tenho isso associado a paz. sei que soa a cliché porque "cheiro da relva acabada de regar" é frase mais batida do que "não és tu, sou eu" mas, mesmo sabendo que sou eu e não tu, tenho esse sentimento que é quase um cheiro, a chuva acabou e agora fica o cheiro a relva molhada, é preciso cuidado porque a relva pode deixar manchas verdes e para quem sabe a situação do sporting, não convém e, ahah, podes cair outra vez e magoares-te. isso pode ser bom porque tens a desculpa perfeita para nao ires ao ginásio mas do outro lado, a mágoa é fodida. está tudo bem.

shiny happy people R.E.M

O mundo seria um lugar muito melhor se


  1. Quando em reuniões de informações, ou mesmo em reuniões de pais, as pessoas ouvissem sem estarem, de cinco em cinco minutos a tomar tudo o que é dito como pessoal. "ah mas no meu caso eu não posso ir porque o meu carro tem de fazer a inspeção e não sei como vai ser porque a minha sogra tem de ir ao posto de saúde todas as quartas fazer o penso porque caiu e sabem lá o que eu passo, a minha mãe (que deus a tenha) é que tinha razão, eu devia ter casado com o carlão que hoje tem uma casa com furo e laranjeiras" ou "o meu Tomás, meu riquinho, diz sempre que gosta muito da professora e quando o vou deitar diz que a professora é a namorada dele, coisa má linda" fazendo com que todo o mundo se atrasa porque algures alguém achou que a reunião era somente para eles. nao. ouçam, fiquem calados e no fim, se conseguirem, peçam cinco minutos para falarem em privado. assim em vez de todos sofrermos, só sofre uma.
  2. quando no multibanco, não fiquem a fazer os pagamentos do mês. edp vodafone, agua, seguro e o caralho que vos foda. se virem pessoas atrás, façam um, deem a vez a outro e voltem. as contas nao fogem. acreditem, sei por experiência própria
  3. os vossos filhos não têm 26 meses e 3 semanas. essas contas só servem quando se fala em ordenado, quando se fala em vidas humanas, tem 2 anos e qq coisa. usem o "qualquer coisa" e não obriguem a outra pessoa a fazer contas de cabeça. a vida já é dificil assim
  4. não se riem das suas próprias piadas. pior, nao comecem a olhar a volta a investigar se o publico achou piada e muito menos acotovelem o vizinho do lado logo depois da punch line com riso a porco a ver se perceberam. provavelmente nao perceberam e, provavelmente, nao teve piada.
  5. "eu sou uma pessoa que" "eu cá sou assim" epah nao. somos todos um livro por abrir e nada de spoilers antes. ainda por cima soa a arrogância e a minha frase preferida estes últimos tempos tem sido essa; your ego is not your amigo. caladinhos, deixem que os outros vos descubram, não comecem com pistas, listas e o tanas. na boa. quem for inteligente verá o vosso valor. ou falta dele, vá
  6. Gostar de toda a gente é não gostar de ninguém. nada me demove dessa filosofia. quem é amigo de todos não é amigo de ninguém. é um trevo de 3 folhas que vai ao sabor do vento. nem sequer é especial, toda os trevos têm 3 folhas mas vai, qual puta, pelo lado que o vento sopra com medo de nao seguir a manada e perder algo que, provavelmente perdeu há muito tempo (atrás)
  7. nao façam listas. a nao ser que estejam profundamente entediados. 


your ego is not your amigo


  1. Estava ali a escrever no twitter que joacine, assim como rita ferro rodrigues e sei lá eu quantos mais até tiveram boa vontade em querer mudar o mundo, o que estragou tudo foi não conseguirem dividir o objetivo da atenção que tiveram. não sou muito de política, nem sequer de futebol o que me torna muito chata nos jantares de família porque em vez de me chatear porque andré ventura, futebol clube do porto ou "jesus; existiu ou não; comecemos o debate", costumo estragar tudo com queixas existenciais mandando à cara o que aconteceu há séculos (atrás) quando descobri a roda e a minha mãe não me deu credito mandando me para a gruta mais perto durante dois dias e quando a cabra da minha irmã mostrou o mesmo circulo, fizeram uma festa, chamaram-na de génio e até fizeram mamute no forno. 
  2. Anos mais tarde (há muitos anos "depois") estava eu a ir buscar agua à fonte, cabelo em cachos, gola de renda, saia comprida e no meu cavalo trovão quando parei num poço e apareceu um cavaleiro manhoso que toda a gente detestava mas decidi dar lhe a oportunidade de falar comigo, convenhamos, a esperança de vida é de 39 anos e eu só tinha mais 2. deixei que ele visse o quanto eu era forte mais o meu balde de madeira a ir bem fundo no poço e, mais tarde e como qualquer donzela da belle epoque, deixei cair o lenço. toda a gente sabe que é um sinal de flirt, até o chagas freitas escreveu um livro intitulado "caralho deixaste cair o lenço e agora só te quero fo*er" mas o matulão apanhou o lenço, aproveitou para se assoar e disse que se "tinha cagado a rir com a atitude". nunca mais me apaixonei na vida, copo meio cheio? está lhe a cair o cabelo e hoje nao tem dinheiro para lenços nem de papel.
  3. Tempos modernos. victan e prozac. twitter e livros de auto ajuda. a vida não é má se conseguires seguir os teus instintos. mais um natal em que nao vais falar sobre o ventura nem sobre deus.  a psicanalista pede me listas com prós e contras das minhas batalhas, as minhas colegas estão no dubai ou  em sal, eu ando sempre com lenços descartáveis e nao quero mais descobrir a roda nem sequer buscar agua do poço. fechou se um ciclo que pareceu eternidades

soundtrack tom petty - a face in the crowd

Teresa entrou no consultório como quem entra para o funeral, disposta a matar, fazer o luto e chorar. especialmente chorar. entrou e do outro lado da secretária estava uma jovem que facilmente podia ser confundida com a sua cunhada veterinária que vende ração para cães e já há muito desistiu de emagrecer, bom, antes ainda tentou agulhas nas orelhas mas - ta-da  -  não funcionou. entrou e sentou-se. decidiu fazer um resumé de quem era porque tempo é - literalmente- dinheiro;  pai, mãe, mana, países, trabalho, família, tudo muito rapidamente como quem tenta falar das contra indicações de um remédio para a tosse.

Levantou-se várias vezes, foi para fora fumar, fez imensos ruídos quando falava de coisas que não gostava (argh, ewww) e outros quando falava de coisas que a enterneciam (Aww). no meio ainda disse "ainda bem que lhe pago para me ouvir que isto deve ser uma seca para si". ela riu-se. optimo

"sabe, tenho dificuldade em largar as pessoas", deve ter sido a primeira coisa que disse ou pelo menos foi a única coisa que a vanessa cristina (ou coisa que o valha) reteve. ao longo da conversa tentou lembrar Teresa porque tinha "dificuldade em largar as pessoas" e ela esquivava-se lembrando apenas o quanto lhe doeu, o quanto fez doer e o quanto era tudo tão confuso nesse pequeno harém afetivo chamado sua vida. vanessa cristina (ou coisa que o valha) obrigou, então, a pequena que estava num choro intermitente a pensar em vez de sentir e teresa, pela primeira vez em anos, conseguiu ouvir-se, pensar e olhar para trás e por um pequeno momento, pensou que talvez - talvez - ter dificuldade em deixar as pessoas ir podia não ser mau, podia até ser uma prova do quanto era genuíno o que sentia e, convenhamos, os laços uma vez apertados são difíceis de desfazer.

Teresa saiu um pouco mais leve e um pouco mais orgulhosa de si. agora, quando sentisse o coração apertado, imaginava que eram os laços a serem desfeitos. Teresa saiu do velório vestida de negro e alma lavada.